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13/03/2019 | 20:11 | Polícia

Pai de Bernardo acusa Graciele e Edelvânia de assassinar o filho: ''Eu não mandei matar''

Médico é um dos quatro réus que estão sendo julgados pelo assassinato

"Se existe inferno na terra, é a prisão", disse Boldrini durante julgamento - Isadora Neumann / Agência RBS


Por cerca de três horas, Leandro Boldrini falou no julgamento pela morte do filho Bernardo Uglione Boldrini em Três Passos, na Região Noroeste. Dirigindo-se com frequência aos jurados, o médico não chorou nenhuma vez. Pediu para falar de frente para o conselho de sentença. Com microfone na mão, gesticulou e chegou a se levantar algumas vezes. Ele atribuiu a culpa pela morte do menino, assassinado aos 11 anos, em abril de 2014, a madrasta do menino Graciele Ugulini e Edelvânia Wirganovicz, também rés no processo. Para o Ministério Público, ele é o mentor do crime. 


— Não sou egoísta ao ponto de dizer, “pobre de mim, estou preso, minha vida acabou”. Não senhor. O que fizeram com o Bernardo não tem explicação. A vida a gente reconstrói depois. Deixa eu ir lá ver onde está meu filho, abraçar minha filha, em Santo Augusto. O meu caminho vai ser trilhado de volta em Três Passos, podem escrever isso. Ao final desse processo vocês vão ver quem assassinou e planejou. E eu digo quem foi: foi a Graciele e a Edelvânia! Eu não mandei matar o meu filho — disse com olhos fixos nos jurados. 


 Foi assim, virado para o conselho de sentença, composto por cinco homens e duas mulheres, que ele falou a maior parte do tempo. Vestindo camiseta branca e jeans, roupa idêntica à da sessão anterior, reconheceu que foi um pai ausente e disse que teria atitudes diferentes, se tivesse outra chance. Ao fim da sessão, disse aos jurados que a primeira coisa que pretende fazer, caso seja absolvido, é ir ao cemitério visitar o túmulo do filho. 


— Quando tirarem essas algemas de mim, senhores jurados, a primeira coisa que eu vou fazer é me ajoelhar e rezar pelo meu filho — disse. 


Aos advogados responsáveis por sua defesa, Boldrini reconheceu que a relação entre Bernardo e a madrasta, Graciele, era conturbada. Chegou a dizer que os dois “se odiavam”. Ainda assim, alegou que não desconfiava que a mulher pudesse chegar ao ponto de matar o filho. 


—Jamais pensei que ela fosse fazer um troço desses. (...) Essa dor eu vou carregar para o resto da minha vida — afirmou. 


O médico também atribuiu a Graciele a decisão de gravar vídeos de Bernardo. Ele alegou, no entanto, que a intenção era mostrar os vídeos a um psiquiatra, para saber quais medidas adotar. Para a Promotoria, as imagens são a prova de que o menino era torturado psicologicamente. Boldrini disse que o filho queria ser médico, assim como ele, porque sabia que ele salvava vidas. Também argumentou que sempre quis ser julgado em Três Passos porque acredita que sua inocência será reconhecida. 


— Jamais eu ia fazer uma monstruosidade dessas, que é tirar a vida do meu filho. Amo meu filho até hoje. Amava ele — disse.  


Boldrini disse mais de uma vez durante a sessão que faria as coisas diferentes, caso tivesse outra chance. Ao fim, limitou-se a dizer: 


— Espero Justiça, excelência. 


Boldrini pediu permissão à Justiça para que pudesse abraçar os irmãos. O encontro aconteceu dentro do Fórum. A juíza Sucilene avisou os jurados, no final do dia, que nesta quinta-feira os trabalhos devem ultrapassar 19h. A intenção é dar início aos debates entre Ministério Público e defesas, para garantir que o julgamento seja encerrado na sexta-feira.  


Questionamentos do Ministério Público


Durante o segundo momento em que foi interrogado no julgamento em Três Passos, o médico Leandro Boldrini foi indagado pelo Ministério Público. Além do pai, também são réus no processo a madrasta do menino, Graciele Ugulini, e os irmãos Edelvânia e Evandro Wirganovicz. 


Boldirini confirmou que usava o medicamento midazolam nos exames realizados em pacientes. Essa substância foi encontrada pela perícia no corpo de Bernardo. Edelvânia disse em confissão à polícia que o menino foi dopado com dois comprimidos desse remédio e depois teve aplicada injeção letal na veia.


A juíza questionou Boldrini sobre o controle da receita. Ele disse que os blocos ficavam no consultório, assim como o carimbo. 


— A Graciele tinha acesso — afirmou.


Durante os questionamentos, Boldrini disse que não entendeu o motivo pelo qual foi preso. Ele relatou ainda que indagou Graciele se ela tinha matado o menino e ela confirmou o crime.


— Não perdi o controle porque houve uma gritaria de policiais e me levaram lá para baixo Â�— disse. 


A primeira pergunta do promotor Bruno Bonamente para o réu foi sobre o relacionamento dele com Graciele. Boldrini garantiu que tentou melhorar a relação do filho com a madrasta e que levou o menino a um psiquiatra. O promotor insistiu na pergunta. 


— Era uma relação de respeito e, assim, uma relação familiar, de amizade, de compreensão um com o outro, de confiança. Isso que tenho para lhe dizer — disse. 


O promotor questionou de que forma Bernardo se encaixava nessa família, com a chegada da madrasta e o nascimento da outra filha. 


— O Bernardo já definia o que ele queria fazer. Estava crescendo, estava com 11 anos. (Bernardo) não era um estorvo, senhores jurados — argumentou. 


Sobre a mãe de Bernardo


O médico disse ainda que pensou que ia morrer no dia em que a mãe de Bernardo, Odilaine Uglione, foi ao consultório dele com uma arma. A mulher morreu com um disparo na cabeça em fevereiro de 2010. A polícia concluiu que ela cometeu suicídio. 


— Levei três anos para me recuperar, com uso de medicação — relatou. 


O réu afirmou que um médico prescreveu medicamentos para Bernardo na metade de 2013. Reconheceu que ele mesmo pode ter prescrito remédios para o filho - o menino tomava medicamentos de uso controlado (depakote e ritalina). 


Ele alegou que ministrava as doses do filho e que orientava Bernardo e pessoas próximas a ele sobre o controle dos remédios. 


—Não tinha quantidade suficiente para que houvesse superdosagem — disse. 


Como via o filho


— Como era o Bernardo? — questionou o promotor. 


— Ele tinha grau de personalidade muito forte. Ele queria uma coisa tinha que ser agora. Ele insistia. Às vezes, essa questão da explosão, que motivou aquela coisa horrível do facão (vídeo gravado pelo pai), foi porque ele queria ir pousar na tia Ju (vizinha Juçara Petry, a quem Bernardo considerava como mãe). Ele chega em casa, doutor, e ele começa a atirar o óculos no chão, atirar o controle (da televisão), atirar o que tiver. E chuta e grita. Esse episódio foi num crescente. No momento que ele pedia uma coisa, não era negado. Talvez fosse dado com um certo limite desde cedo, a gente tem que ter as responsabilidades. 


— É assim então que o senhor via o Bernardo? — insistiu o promotor, e Boldrini confirmou. 


Outras testemunhas, como Juçara, ao serem questionadas da mesma forma descreveram um menino dócil, educado, inteligente e carinhoso. A promotora Silvia Jappe questionou Boldrini sobre o motivo pelo qual em interrogatório anterior ele disse que era pai de uma filha apenas. 


— Por que naquela oportunidade faltou a lembrança do filho Bernardo?


— Eu poderia ter complementado na época, mais um filho. Se existe inferno na terra é a prisão — respondeu Boldrini. 


—A prisão lhe fez lembrar do Bernardo então? — disse Silvia. 


— Eu estava sob um interrogatório, tenso — argumentou Boldrini. 


— Tal qual o senhor está aqui — rebateu a promotora.


Defesa pode pedir anulação 


As questões insistentes do promotor Ederson Vieira levaram a defesa de Leandro Boldrini a orientar que ele não respondesse mais perguntas do membro do Ministério Público (MP). Depois disso, o MP passou a fazer as questões, para que ficassem gravadas, mas o réu permaneceu em silêncio. Os advogados do médico entenderam, no entanto, que o réu foi prejudicado pelo teor das questões e fizeram uma consignação, que pode ser usada para pedir anulação do júri posteriormente. 


Vieira questionou Boldrini repetidas vezes sobre o horário em que ele esteve em casa no dia em que Bernardo foi levado. O réu inicialmente disse que chegava em casa por volta do meio dia e que teria levado cerca de 15 a 20 minutos para almoçar. O promotor então questionou como o médico não viu o momento em que Graciele saiu de casa com Bernardo. Uma câmera de um estabelecimento registrou a passagem do veículo da madrasta às 12h23min. 


— Então o senhor estava em casa almoçando, quando ela saiu —  disse o promotor. 


Boldrini argumentou que estava dormindo, mas o MP insistiu que os horários não fechavam. O réu argumentou que o horário não era preciso. Neste momento, a defesa de Boldrini se manifestou pedindo que o réu não respondesse mais perguntas ao promotor, por entender que ele estava induzindo o cliente a contradições. 


Depois disso, Vieira continuou fazendo as perguntas, mas Boldrini permaneceu em silêncio. As questões precisam ficar gravadas no áudio da sessão. O promotor exibiu áudios nos quais o médico era questionado por um familiar sobre o motivo pelo qual não estava procurando o filho. O padrinho de Bernardo questionou diversas vezes no telefone se Graciele havia feito algo com o menino. 


— Nem assim o senhor desconfiou da Graciele? — questionou o promotor. 


A defesa de Boldrini fez uma consignação para que, caso entenda ao fim do julgamento que o cliente tenha sido prejudicado pelo fato do MP continuar perguntando, mesmo quando o réu optou por ficar em silêncio, seja encaminhado pedido de anulação do júri. 


— O direito ao silêncio acaba de ser violado pelo MP — disse Ezequiel Vetoretti. 

Fonte: Gaúcha ZH

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