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15/07/2020 | 08:02 | Saúde

Período considerado crucial para combate à pandemia no RS chega à metade: o que avançou e o que falta melhorar

Ocupação de leitos de UTI se estabilizou, mas distanciamento social em Porto Alegre ainda não atinge a meta

Aumento das restrições em Porto Alegre levou a prefeitura a fechar o acesso à Orla Moacyr Scliar - Mateus Bruxel / Agencia RBS


Passada a primeira metade dos 15 dias definidos como cruciais pelo governador Eduardo Leite e pelo prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, é possível observar que a ocupação de leitos de UTI se estabilizou, registrando até uma sensível queda na Capital, região de cenário mais dramático atualmente. Por outro lado, apesar das medidas adicionais de restrição de circulação decretadas por Marchezan, o nível de distanciamento social cresceu pouco e não alcançou a meta de 55% — exceto nos últimos três domingos —, mesmo diante do hercúleo esforço que significa manter diversas atividades econômicas fechadas, sobretudo no comércio.


O período crucial de 15 dias se iniciou em 7 de julho. Marcou o ingresso do Rio Grande do Sul na fase de possível aproximação com o esgotamento do sistema de saúde e, por isso, os gestores justificaram as medidas mais duras que estavam por vir. O Rio Grande do Sul, nesta semana, passou de seis para 10 regiões em bandeira vermelha no modelo de distanciamento controlado. Em Porto Alegre, Marchezan baixou medidas adicionais, como o fechamento de cinco parques públicos, salões de beleza, academias, igrejas e Mercado Público, além do fechamento da área azul de estacionamento e o corte do vale-transporte de trabalhadores de setores não essenciais.    


Os resultados do arrocho causado pelas medidas de controle serão cristalizadas na semana que vem, passado o período de 15 dias, mas a análise parcial de dados indica que o fato positivo foi a estabilização das internações em UTI. No dia 7, a taxa de ocupação dos leitos no Estado era de 73,9%. Na segunda-feira (13), uma semana após o início do período crucial, o indicador fechou em 73,8%.


A evolução da ocupação dos leitos de UTI nos últimos 21 dias também mostra que, depois de quase dobrar neste curto espaço de tempo (de 273 para 530), houve uma estabilização nos últimos três dias. O dado é valorizado por Leany Lemos, coordenadora do Comitê de Análise de Dados da covid-19.


— Estamos vendo certa estabilização nos últimos dias em relação às UTIs. É uma sinalização importante em comparação às semanas anteriores. Esperamos que essa tendência continue. É muito leve a desaceleração, ainda não invertemos a curva e é importante manter a cautela — avalia Leany, evitando cantar vitória antes do apito final.


A estabilização nos últimos 21 dias veio acompanhada não só por distanciamento, mas pela habilitação de 199 novos leitos de UTI no Estado. Técnicos do governo argumentam que é preciso seguir com as restrições de circulação porque não será possível manter indefinidamente a abertura de novos leitos, seja pela falta de recursos, carência de estrutura física ou por escassez de profissionais qualificados.   


Em Porto Alegre, a ocupação de UTIs teve sensível queda entre 7 e 14 de julho: de 84% para 83,47%, um empate técnico. Mas, ressalvam as autoridades, isso se deve sobretudo à abertura de 15 novos leitos no período. Mais de 30% dos pacientes de UTIs na Capital estão positivados para a covid-19. A estabilização é vista com cautela pelo município, que projeta atingir o esgotamento do sistema de saúde no final de julho. Nesta terça-feira, a cidade tinha 238 infectados em UTI, o que a aproxima de romper o segundo teto de internados por coronavírus, definido em 255. Por isso, a tendência é de que as medidas restritivas devem continuar. 


— Todas as estatísticas dos nossos técnicos tiveram acerto até agora. E elas nos dizem que, no final de julho, a prosseguir o mesmo ritmo, teremos o esgotamento dos leitos. Por isso, o distanciamento é importante. O esforço permanece e, mais do que isso, temos de intensificá-lo. Ainda temos muito a fazer. A semana é de esforços de comunicação e pela conscientização — diz Bruno Miragem, secretário extraordinário de Enfrentamento ao Coronavírus de Porto Alegre. 


Índice de distanciamento social não chegou ao nível do final de março


Apesar da estabilização das internações em leitos de UTI, os dados de medição de isolamento mostram que a população, mesmo com as medidas mais severas em Porto Alegre, não está cumprindo em níveis satisfatórios (veja abaixo). Na última semana, entre 7 e 13 de julho, a primeira em que valeram todas as restrições atuais de forma concomitante, a média de isolamento alcançou 47,5%. 


No período entre 16 e 22 de junho, última semana de bandeira laranja na Capital, com mais atividades econômicas funcionando, o índice de isolamento aferido foi de 41%. Ou seja, as três semanas seguintes de bandeira vermelha do governo estadual, acrescidas de decretos da prefeitura para ampliar a restrição da circulação, resultaram em incremento de 6,5 pontos percentuais no isolamento. Os números, além de não alcançarem a meta de 55%, se mostram distantes do indicador de distanciamento do início da pandemia, quando foram batidos 61% em 24 de março. 


— As restrições, em parte, não estão contando com adesão da população por várias razões, como a exaustão física, emocional e econômica. Há um limite das pessoas que precisam trabalhar e que estão desrespeitando. E há uma intensificação do discurso de minimização dos riscos e descrença sobre a necessidade de distanciamento. Esse discurso está muito forte em redes sociais — avalia Miragem. 


A situação é paradoxal: embora Porto Alegre se mantenha entre as grandes cidades de maiores índices de distanciamento do país, ainda está abaixo do idealizado para conter a curva do coronavírus. A menor adesão da sociedade também é medida pela circulação de veículos nas ruas e pela quantidade passageiros no transporte público, ambos abaixo dos padrões desejáveis e acima dos índices alcançados na fase inicial de restrições, em março. 


Prefeitura analisa “modelo alternativo”


Os índices de isolamento abaixo do esperado e as evidências de esgotamento da população levam a prefeitura de Porto Alegre a analisar modelos alternativos, diz o secretário Bruno Miragem. Diante de três semanas de arrocho nas medidas, tendo um aumento na adesão ao distanciamento de 6,5 pontos percentuais, ele diz que é necessário analisar a relação de causa e efeito. Até agora, o maior aliado do município para elevar o distanciamento nesta fase crucial tem sido o clima: dias chuvosos e frios registraram os melhores indicadores.


— Temos de manter as restrições, mas o nível dessas restrições nós estamos estudando desde a semana passada, também contemplando essa ideia de exaustão. As restrições têm de ser passíveis de fiscalização, compreendidas pelas pessoas e com relação direta no aumento do distanciamento. (Temos de) ver se está tendo efetividade, restrição por restrição não faz sentido — avalia o secretário. 


Miragem não especificou as possibilidades e salientou que os modelos ainda estão em estudo. Ele sinalizou que uma alternativa poderá ser a volta de setores econômicos de forma compartimentada.  


— Talvez se pense em modelo alternativo que contemple setores, dias. Estamos olhando o mundo inteiro, o que deu certo e o que deu errado. Na Alemanha, abriram por tamanho físico. Em outros lugares, por dias da semana, por tipo de atividade ou por porte econômico. Estamos olhando o que eventualmente pode contribuir com Porto Alegre para que a atividade econômica possa ter uma abertura sustentável — diz Miragem.    


Entidades empresariais pedem retorno controlado


A presidente da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul), Simone Leite, define como resultado de “desobediência civil” o índice de isolamento de 47,5% na última semana em Porto Alegre, abaixo dos 55% almejados pela prefeitura. A dirigente diz que, em pesquisas promovidas pela entidade, foi aferido que o maior temor das pessoas hoje é perder o emprego. Antes, sustenta, o medo predominante era com a letalidade da covid-19. Ela ainda salientou os 123 mil empregos formais perdidos em três meses de crise. 


— As pessoas não estão cumprindo esse decreto (de Porto Alegre). Infelizmente, lojas estão abertas e restaurantes tentam manter suas atividades. Lamentamos muito por isso. Quanto mais restringirmos as atividades econômicas, maior será a informalidade. Não se atinge a meta porque as pessoas estão precisando trabalhar para ter renda — diz Simone.


Ela ainda apontou que pessoas seguem se aglomerando em supermercados e assegurou que os setores econômicos evoluíram a patamares seguros de prevenção à transmissão da covid-19. 


— Entendemos que pode haver um retorno de forma parcial nas atividades econômicas. Estamos pedindo a flexibilização para que, em bandeira vermelha, possamos ter 50% de funcionamento das lojas, que poderiam fazer escalas entre seus funcionários — afirma. 


O presidente da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), Luiz Carlos Bohn, diz que os dados não indicam “um agravamento generalizado” da pandemia no Estado. Ele cita o exemplo da região de Santa Maria, que tem histórico de bandeira laranja no modelo de distanciamento controlado, com comércio aberto mediante protocolos de segurança: 


“Existe uma queda contínua nesse número (de hospitalizações por covid-19) há três semanas, tendo caído 50% na semana passada. Esses dados são importantes para mostrar que a abertura do comércio não pode ser responsabilizada como um fator comum causador de agravamento da pandemia”, diz Bohn, em nota.  


Ele também destacou a aplicação rígida de protocolos de segurança nas empresas.    


Índices de distanciamento


Índices de distanciamento social em Porto Alegre na última semana, entre 7 e 13 de julho, a primeira de medidas mais restritivas que fecharam salões de beleza, igrejas, academias e Mercado Público, além da interdição de estacionamento na área azul e do bloqueio do vale-transporte para trabalhadores de setores não essenciais.


Segunda, dia 13 - 44%


Domingo, dia 12 - 60%


Sábado, dia 11 - 51%


Sexta, dia 10 - 40%


Quinta, dia 9 - 43%


Quarta, dia 8 - 45%


Terça, dia 7 - 50%


Média da semana - 47,5% de isolamento social em Porto Alegre


Índices de isolamento social na semana entre 30 de junho e 6 de julho, semana em que passou a valer a interdição de cinco parques públicos na Capital.


Segunda, dia 6 - 44%


Domingo, dia 5 - 62%


Sábado, dia 4 - 46%


Sexta, dia 3 - 41%


Quinta, dia 2 - 42%


Quarta, dia 1 - 41%


Terça, dia 30 - 49%


Média da semana - 46,4% de isolamento social em Porto Alegre


Índices de isolamento social na semana entre 23 e 29 de junho, período em que a Capital ingressou na bandeira vermelha do modelo de distanciamento controlado do governo estadual. Nesta semana, a prefeitura publicou decretos com restrições para o comércio, bares e restaurantes, indústria e construção civil. 


Segunda, dia 29 - 43%


Domingo, dia 28 - 57%


Sábado, dia 27 - 47%


Sexta, dia 26 - 40%


Quinta, dia 25 - 45%


Quarta, dia 24 - 40%


Terça, dia 23 - 40%


Média da semana - 44,5% de isolamento social em Porto Alegre


Índices de isolamento social na semana entre 16 a 22 de junho, último período de sete dias em que a Capital estava na bandeira laranja no modelo de distanciamento controlado do governo estadual, com menos restrições aos setores econômicos.


Segunda, dia 22 - 41%


Domingo, dia 21 - 51%


Sábado, dia 20 - 43%


Sexta, dia 19 - 34%


Quinta, dia 18 - 40%


Quarta, dia 17 - 38%


Terça, dia 16 - 40%


Média da semana - 41% de isolamento social em Porto Alegre


Dados de mobilidade urbana monitorados pela prefeitura de Porto Alegre


Passageiros no transporte público por dia


Antes da pandemia - 819,3 mil


Início das restrições (24 de março) - 165,6 mil


Atual (13 de julho) - 240,8 mil


Desejado - 200 mil


Circulação de veículos em Porto Alegre por dia


Antes da pandemia - 266,5 mil


Início das restrições (24 de março) - 125,8 mil


Atual (13 de julho) - 214,3 mil


Desejado - 170 mil 


Ocupação de leitos de UTI em Porto Alegre


Dia 7 de julho - 84% das UTIs ocupadas


Dia 14 de julho - 83,47% das UTIs ocupadas*


* A leve redução ocorreu, sobretudo, pelo aumento de 15 leitos no sistema. Eram 723 UTIs no dia 7, passando para 738 no dia 14. 


Pacientes internados em Porto Alegre um UTI com confirmação de covid-19


Dia 7 - 186


Dia 14 - 238


Total de pacientes em UTIs em Porto Alegre


Dia 7 - 607


Dia 14 - 616


Taxa de ocupação de leitos de UTIs no Estado do Rio Grande do Sul  


Dia 14 de julho - 74,2%, até 20h05min


Dia 13 de julho - 73,8%


Dia 7 de julho - 73,9%


Taxa de ocupação de leitos de UTIs por macrorregião de saúde do Rio Grande do Sul


Centro-oeste - 67,9%


Metropolitana - 79%


Missioneira - 57,6%


Norte - 71,4%


Serra - 71,6%


Sul - 66,5%


Vales - 71%


Evolução das bandeiras nas 20 regiões do Rio Grande do Sul, com indicativos de agravamento


14 a 20 de julho - 10 regiões com bandeira vermelha na classificação final


7 a 13 de julho - 6 regiões com bandeira vermelha na classificação final


30 de junho a 6 de julho - 6 regiões com bandeira vermelha na classificação final


23 a 29 de junho - 4 regiões com bandeira vermelha na classificação final

Fonte:

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