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16/07/2020 | 08:31 | Polícia

Como o RS derrubou pela metade os casos de ataques a bancos

No primeiro semestre, roubos e furtos a agências bancárias caíram 50%, em comparação com o mesmo período do ano passado

Reprodução/Internet


Na tarde de 3 de dezembro de 2019, um Cruze ingressou em um posto de combustíveis no centro de Ibarama, no Vale do Rio Pardo. A conta de R$ 100,00 pela gasolina não seria paga. De dentro do veículo saltaram criminosos armados. O alvo estava do outro lado da Rua Júlio Bridi: a única agência do Sicredi no município de 4,4 mil habitantes. Quem estava perto, foi empurrado em direção ao banco. Em segundos, formou-se o cordão humano, com homens e mulheres lado a lado, de mãos dadas. 


A ação violenta representa, desde então, a última registrada no Rio Grande do Sul no estilo "novo cangaço" - onde bandidos invadem cidades e usam moradores como escudo. No primeiro semestre de 2020, os ataques a bancos despencaram pela metade no Estado, em comparação com o mesmo período do ano passado.


Para alcançar este cenário, ações têm sido postas em prática, entre elas a ofensiva da Brigada Militar com foco no combate ao "novo cangaço". Por meio dela, seis dias após o ataque em Ibarama, enquanto policiais ainda buscavam os assaltantes, um foragido foi capturado em Santo Antônio da Patrulha. Considerado "explosivista", como são chamados criminosos com conhecimento na área, Agripino Brizola Duarte, 49 anos, era o principal procurado da Operação Angico. O nome faz alusão ao lugar onde Lampião, o Rei do Cangaço, foi abatido pela polícia, em 1938 no sertão do Sergipe: a Grota do Angico.


Em território gaúcho, a ação se baseia em inteligência, para decifrar informações, e emprego de tropas especializadas, com alto poder de fogo. A Angico ataca em três eixos: evitar que explosivos sejam desviados às mãos dos bandidos, prender criminosos com expertise no ramo e se antecipar às ações dos grupos. Foi assim na madrugada de 6 de março, em Paraí, na Serra, quando sete assaltantes prontos para explodir duas agências foram cercados e morreram durante a troca de tiros.


—A intenção é agir de forma que não seja necessário o confronto. Mas, quando acontece, acredito que seja uma forma de inibir novas ações. A criminalidade percebe que a polícia pode responder de forma contundente, com efetivo especializado — afirma o comandante-geral da BM, coronel Rodrigo Mohr Picon.


O subcomandante-geral da BM, coronel Vanius Santarosa, concorda que o fato dos grupos terem perdido integrantes durante os tiroteios ou prisões é um dos fatores que contribuiu para afugentar as ações dos grupos. Em sua avaliação, a maior parte dos criminosos mais experientes está fora de atuação.


— A ação criminosa faz análise do risco. Esses grupos locam armamentos para os assaltos. E eles não estão conseguindo recuperar os recursos financeiros. Isso também faz com que desistam — analisa.


O monitoramento dos criminosos permitiu à inteligência da BM identificar que parte daqueles que não foram presos migraram de delito, forma de atuação e até mesmo de Estado. Entre os que permaneceram nos roubos a banco, percebe-se que tem optado por agir nas cidades maiores, fazendo funcionários reféns. Em Porto Alegre no dia 25 de junho, dois criminosos assaltaram desta forma uma agência do Banrisul, no bairro Independência.  


— A operação Angico está conseguindo livrar as comunidades do Interior, onde esse tipo de crime causa muito impacto. Mas temos mapeado outro tipo de ação, onde entram no horário de abertura ou fechamento do banco, especialmente aqui na Região Metropolitana. Percebemos também que grande número de criminosos migrou para Santa Catarina. Estamos trocando informações com as polícias de lá — detalha Santarosa.


A Polícia Federal também monitora as ações de grupos que atuam no RS e em outros Estados além da possível migração para outros crimes. O delegado Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado da PF do RS, Alessandro Maciel Lopes explica que entre os criminosos especializados na área há chance menor de que eles passem a viver de outros delitos, como contrabando ou tráfico. Já os que possuem função menos relevante diversificam a atuação.


— Muitos estão presos, a partir das ações das forças de segurança, e fora de atuação. Organizações criminosas foram identificadas e desmanteladas. Isso culminou na redução em 2020 — acrescenta.


Responsável pela Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), o delegado João Paulo de Abreu afirma que não percebe migração significativa dos criminosos que estão soltos, mas detalha que delitos contra instituições bancárias, de forma violenta, por vezes tem como autores pessoas que já se vincularam a roubo de cargas e a assaltos a grandes empresas, além de extorsão mediante sequestro. Nessa terça-feira (14), dois suspeitos de envolvimentos em ataques a bancos e comércios foram presos em Carazinho, no norte do RS, com armas, coletes balísticos, drogas e uniformes idênticos aos da Polícia Civil e dos Correios. 


— Alguns desses indivíduos estão presos, e assim esperamos que fiquem por um bom tempo. Outros estão mortos e outros foragidos. Especialmente visamos a prisão desses foragidos, pois se percebe, claramente, a intenção não só de não voltaram a prisão e cumprir a pena imposta, mas também a reorganização para novas ações — pondera.


Sobre as ações que resultaram na redução, Abreu afirma que a redução vem acontecendo desde 2017 e acrescenta outros fatores a esta equação como a qualificação das investigações, a produção de provas técnicas pelas perícias, a troca de informações entre os órgãos de segurança, a condenação de criminosos a penas elevadas e medidas preventivas adotadas pelos bancos. O policial diz que a redução  permite dar maior celeridade às investigações.


— Não zeramos os ataques a banco e isso jamais foi nossa pretensão. O que queremos, sim, é mais uma vez, afirmo, construir a melhor investigação possível. Estamos buscando a localização do dinheiro subtraído por esses grupos criminosos, ao longo desses anos. Não só fatos de agora, mais recentes, mas fatos acontecidos há anos. Com isso, sim, temos a certeza que esses grupos certamente virão a ser desarticulados — afirma o delegado.

Fonte: Gaúcha ZH

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