Em apenas meia-hora na noite de quarta-feira, a Associação Beneficente Hospitalar de Pinhalzinho atendeu três
pessoas com sintomas da dengue. Depois da avaliação dos médicos, o diagnóstico foi certeiro: a doença foi confirmada e os pacientes, internados
imediatamente. Na cidade de 18 mil habitantes, localizada a cerca de 60 quilômetros de Chapecó, 1.091 foram diagnosticados com dengue desde janeiro, incluindo o prefeito
Fabiano da Luz e Sílvio Mocelin, diretor administrativo do próprio hospital que é referência na cidade para atendimento desses casos.
O avanço da epidemia assusta o Oeste. No último domingo, o professor universitário Alisson Klam, de Chapecó, morreu supostamente por ter dengue grave,
também conhecida como hemorrágica. O caso está sendo analisado por um laboratório de São Paulo e, se confirmada, será a primeira morte já
ocorrida pela doença em Santa Catarina.
A dengue já faz parte da rotina dos moradores de Pinhalzinho. No hospital são de 30 a 40 atendimentos
por dia e um novo médico foi contratado exclusivamente para atender os pacientes suspeitos. Abatidos pela doença, Fátima e Clênio Razeira chegaram ao pronto
socorro na quarta à noite. Os dois foram infectados pelo mosquito Aedes aegypti. Em seguida, Flávio Hermes também trouxe a mulher Genezi, neste caso só ela foi
acometida pela doença.
— Ela estava só piorando e agora vai ter que tomar soro, pois baixou as plaquetas — disse Flávio.
O número de casos na cidade corresponde a 81% dos registrados em Santa Catarina em 2016. O índice chegou a 5,8 mil doentes por 100 mil habitantes, quase 20
vezes mais do que a média estabelecida pela Organização Mundial de Saúde para considerar o quadro como uma epidemia, critério que também inclui
Serra Alta, Descanso e Coronel Freitas nesse quadro. E Bom Jesus se aproxima do índice. Todos no Oeste, que detêm mais de 90% dos casos registrados no Estado.
Morte despertou alguns, mas teimosia ainda impera
Com 96 casos confirmados até 15 de março, Chapecó ainda não
está em epidemia mas teve a primeira morte com suspeita de dengue grave, do professor Alisson Klam, de 37 anos. Foram encaminhadas amostras de sangue para o Instituto Adolpho Lutz,
em São Paulo, que deve divulgar o resultado na quinta-feira. O caso deixou os moradores do Oeste mais preocupados. Mas ainda há os que resistem em mudar os hábitos e
recolher recipientes que acumulam água e servem como local para a reprodução do Aedes aegypti.
— Se o mosquito me picar, vai transmitir raiva
e não dengue — desabafa a secretária de Saúde de Pinhalzinho, Aida da Silva, diante da resistência dos moradores.
O município
contratou um médico, enfermeira, cinco auxiliares e montou um consultório só para atender os casos de dengue. Também recebeu o reforço de 11 profissionais
da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive), além de 12 bombeiros que ajudam a vistoriar calhas, caixas de água e outros pontos de difícil acesso.
Nesses locais, milhares de larvas têm sido encontradas. A bióloga Sabrina Fernandes Cardoso, de Tubarão, ficou impressionada:
— Teve uma
idosa que estava doente e não conseguia nem abrir o portão para nós — relatou.
Outra moradora, que passou pela doença, pediu o que
poderia fazer para ajudar. A Força-Tarefa que está vistoriando os telhados encerra as atividades neste sábado. Mas, como não atingiram 100% das casas, o
município vai contratar uma equipe própria para dar sequência ao trabalho.
Espírito Santo, rua dos doentes
No bairro Santo Antônio, em Pinhalzinho, a rua Espírito Santo permite contar nos dedos quantas pessoas ainda não tiveram dengue.
— Os santos estão de folga – palpita o motorista aposentado Valdecir Cella, 51 anos, um dos poucos ainda imune.
Mas a esposa Lori, 62, ainda se
recupera dos sintomas.
— Se ficar sozinha em casa, você morre — afirma, sobre a fraqueza que a doença provoca.
Ela
teve de ficar internada quatro dias recebendo soro. Não sentia vontade de comer, o que colocava na boca tinha gosto de fumo e a barriga doía. Quase três semanas depois,
ainda sente fraqueza. O casal chegou a confeccionar um repelente com 1 litro de álcool, 100 ml de óleo corporal e um pacote de 12 gramas de cravo. Colocou tela na cisterna e
nas janelas. Até as flores de bananeira e frutas são enterradas para não acumular água.
Por que o Oeste?
A coordenadora da Sala de Situação de Santa Catarina, Suzana Zeccer, afirma que a evolução da dengue em SC está mais preocupante do que no
ano passado, impulsionada pela infestação nas cidades do Oeste.
— A preocupação é bem maior se a gente olhar especialmente
para o número de municípios infestados pelo Aedes aegypti, hoje são 33 cidades e esse é o primeiro passo para a possibilidade de ocorrência de
transmissão. Desses municípios, 17 estão com transmissão e destes, 14 estão no Oeste — explica Suzana.
Entre os fatores eque
contribuem para a concentração de focos na região estão o trânsito de cargas do Mercosul — que percorrem Chapecó e São Miguel do Oeste,
polos da região que estão infestados há algum tempo — o verão bastante chuvoso e o lixo abandonado a céu aberto nessas cidades.
Março e abril tendem a ser meses mais complicados, já que há acúmulo de mosquitos ao longo do verão com dias quentes e chuvosos. Segundo Suzana, embora a
transmissão tenha começado mais cedo do que no ano passado, a tendência é de curva ascendente de transmissão da dengue em Santa Catarina.
Aposentada é uma das poucas imunes da rua
Diferente da maioria das casas vizinhas, o portão da aposentada Lúcia Merigo, de
77 anos, fica sempre chaveado. Ela quer evitar visitas indesejadas. E o mesmo zelo tem para evitar outra inoportuna, a do mosquito da dengue. Lúcia é uma das poucas pessoas da
rua Espírito Santo que não pegou a doença. Além dela e de Valdecir Cella, são só mais três.
A aposentada mistura
conhecimentos que recebeu das agentes, como evitar pontos de acúmulo de água, com a sabedoria popular que acumulou em quase oito décadas de vida. Passa no corpo um
repelente feito com álcool, alho e citronela com frequência. Além disso, até come um dente de alho por dia.
— Quero ver se
não mato eles com o fedor — brinca, sobre o cheiro forte de alho.
Não bastasse tudo isso, recorre à fé para se blindar:
— Eu fiz um sinal da cruz e amaldiçoei os mosquitos.
E ainda assim, Dona Lúcia não sabe se foram as preces ou o alho que
surtiram mais efeito até agora.
O mosquito picou todos da família Gehlen
Primeiro foi o pai, Carlos
Gehlen, a sentir os sintomas da dengue em 31 de janeiro. Quatro dias depois, a esposa, Solange, a filha mais velha, Bruna, de nove anos, e uma das filhas gêmeas, Ana Gabriela, de
três, também apresentaram os sintomas. Quando já tinham a confirmação de que se tratava de dengue, 48 horas depois, a filha Mariana também pegou a
doença.
— Eu não tinha força para levantar — recorda Solange.
Ela pôs um colchão na sala, onde
ficou a família. Dois pais doentes cuidado das três filhas doentes. Solange tinha dor de cabeça e dormia a maior parte do dia. A perna inchou e ficou vermelha. A casa
ficou fechada e os vizinhos pensaram que estava vazia. Carlos perdeu seis quilos em nove dias. A babá das gêmeas ajudava a arrumar a casa e a fazer comida. Mas ninguém
queria sentia vontade de comer. Por dias a dieta foi à base de líquidos.
A família mudou alguns hábitos depois da doença. O
chimarrão na varanda nos finais de tarde foi banido – é o horário em que o Aedes aegypti dá as caras. Carlos colocou tela nas cisternas, tampou o ralo do
banheiro e verificou as calhas. Enquanto isso, as gêmeas Ana e Mariana não saem de casa sem repelente. E cobram dos outros também. Com apenas três anos, o combate
à dengue já faz parte do aprendizado delas.
Avanço da doença em santa catarina
1.333 casos
autóctones (infectados dentro de SC) em 2016, de um total de 1.506
1.014 casos autóctones no mesmo período de 2015
Municípios infestados por focos do Aedes aegypti
OESTE
Anchieta, Bom Jesus, Chapecó,
Cordilheira Alta, Coronel Freitas, Coronel Martins, Cunha Porã, Descanso, Guaraciaba, Guarujá do Sul, Maravilha, Modelo, Nova Itaberaba, Novo Horizonte, Palmitos, Pinhalzinho,
Planalto Alegre, Princesa, Quilombo, São Bernardino, São Lourenço do Oeste, São Miguel do Oeste, Serra Alta, União do Oeste, X
Como os pacientes são atendidos
- Ao ter suspeita de alguma das doenças (dengue, zika ou chikungunya), o caso deve ser imediatamente
notificado pelas autoridades de saúde.
- A equipe de controle de vetores da cidade é informada, porque a circulação do
vírus ocorre até o quinto dia da doença, em média. Nesse período, o vírus está circulando no sangue do paciente e se um mosquito sem o
vírus picá-lo vai se tornar hospedeiro e aumntar o risco de transmissão.
- Se estiver doente, os médicos recomendam
hidratação, porque não há remédio específico.
- A pessoa deve receber um cartão de acompanhamento da
doença para o médico registrar o que detectou na consulta. O retorno será indicado se houver agravamento ou aparecimento de outros sintomas.