Ao chegar ao hospital
na noite de terça-feira (29), depois de sofrer um acidente em uma máquina de trabalho em Orleans, no Sul catarinense, o auxiliar de produção Carlos Mariotti, de
42 anos, ouvia de pessoas próximas que perderia a mão esquerda. Ao acordar da cirurgia, porém, soube que não só ainda tinha a mão como ela estava
inserida em seu abdômen. “O médico disse: tua mão vai ficar dentro do 'bolso'”, conta Carlos, que é destro.
Nesta sexta
(1), ainda hospitalizado, Carlos conseguia sorrir da situação, aliviado depois da dor indescritível que sentiu ao ter a mão puxada por uma máquina de
fabricar bobinas. “Fui passar o filme, quando vi a máquina estava puxando minha mão. Gritei duas vezes, ninguém ouviu. Na terceira, eu puxei”, relembra
Carlos.
Ele estava sozinho naquele momento, mas logo foi socorrido por colegas. “Uma menina que trabalha lá na frente tinha uma atadura na bolsa, eles
amarraram com força, foram os primeiros socorros.” Atendido pelos bombeiros, Carlos foi levado para o hospital.
Cirurgia
“Ele sofreu uma lesão que é chamada de desenluvamento”, explica o médico ortopedista e traumatologista, Bóris Bento Brandão, que fez a
cirurgia para colocar a mão de Mariotti no abdômen. O acidente removeu a pele, mas ossos e tensões foram preservados.
“É uma cirurgia
clássica, mas pouca gente faz porque é uma situação especial, é um procedimento de salvação para evitar necrose, quando não há
mais nada a fazer”, diz Brandão.
Esta é a primeira vez que o procedimento de salvação de mão é feito na
Fundação Hospitalar Santa Otília, único hospital de Orleans. A cirurgia, realizada através do Sistema Único de Saúde (Sus), durou duas horas
e o paciente recebeu anestesia no braço e no abdômen.
42 dias com a mão no 'bolso'
“No caso da
mão, é uma lesão muito grande e delicada. O único lugar que caberia a mão inteira é no abdômen”, conta o médico.
Segundo o especialista, a mão de Mariotti deve ficar por aproximadamente 42 dias “dentro do bolso” para garantir o desenvolvimento de um novo tecido capaz de
receber enxerto de pele.
Durante essas seis semanas, Carlos será acompanhado por médicos semanalmente. O paciente já consegue fazer alguns
movimentos, que podem ser percebidos por baixo do abdômen. “Isso salva a viabilidade do membro. É como se fosse um bolso. Ele é estimulado a fazer movimentos
suaves, para evitar a rigidez da mão”, explica o médico.
“Tenho que cuidar ao máximo para não tirar a mão do
‘bolso’. Se eu quiser puxar, eu puxo, mas ele [médico] colocou na minha cabeça que não posso, e estou cuidando”, diz Carlos, que comemora o fato de
conseguir mexer os dedos dentro do corpo. Ele deve receber alta nos próximos dias. Em casa, ficará aos cuidados da mulher.
“Ele vai ter uma
mão funcional, vai poder dirigir, comer, mas é uma mão menos sensível”, detalha o médico. “Perdi dois dedos, sei que não vai ficar a
mesma coisa, mas vou poder vestir uma camiseta, segurar um talher. Se fosse no passado, teriam amputado. Saber que eu ia perdendo a mão e não vou perder mais...Até
agora me emociono”, diz Carlos.