A bombeira Cristiane
Bieger Andrade atendeu ao telefone de emergência em São Luiz Gonzaga às 1h30min do dia 16 de dezembro de 2016. Poderia um trote, tão comuns, ou outra
ocorrência para atender naquela madrugada de verão. O que ela não sabia é que aquele trabalho, que duraria até o dia clarear, seria tão marcante
para ela e tantos outros profissionais que socorreram estudantes argentinos na BR 285.
Cerca de 62 pessoas estavam em ônibus, que partiu de Posadas e seguia
para o litoral de Santa Catarina. Três delas morreram e dezenas ficaram feridas. O coletivo com os os jovens nunca chegou ao destino, pois tombou na rodovia, nos limites dos
municípios de São Luiz Gonzaga e Caibaté.
O que era um sonho dos estudantes, que entravam em férias após a conclusão das
aulas, se tornou um pesadelo. "Eu e o sargento Voltaire chegamos ao local e nos deparamos com aquela cena que parecia um filme", recorda Cristiane. O veículo, de dois
andares, estava tombado e os feridos gritavam em espanhol pedindo ajuda. O local também tinha objetos no chão, alimentos, vidros quebrados, muitos feridos e jovens já
mortas.
A equipe de São Luiz Gonzaga foi a primeira a chegar. "As pessoas corriam tentando explicar e serem atendidas, gritando e chorando", lembra
a bombeira. Outros vários profissionais da região foram acionados para atenderem a ocorrência.
Dois colegas que estavam de folga e passaram pelo
local ajudaram no atendimento inicial. "Foi uma sensação de alívio ver que já estávamos em quatro pra atender todas aquelas pessoas", afirma
profissional. Depois, socorristas do SAMU da região, bombeiros que estavam de folga e de Santo Ângelo chegaram à trágica ocorrência. Ao passo que
atendiam as vítimas, enviavam para hospitais mais próximos.
O resgate mais delicado
Uma das vítimas,
Érika Romero, estava sentada no primeiro banco do ônibus. Ela tinha metade do corpo debaixo do veículo tombado. Cristiane recorda que ela estava consciente e conversava
com os socorristas. Os bombeiros cavaram um acesso na terra, embaixo do veículo, para conseguir retirá-la com segurança. Ela foi levada ao hospital de Santo
Ângelo, onde ficou internada por várias semanas. A jovem passou por várias cirurgias para conter hemorragias e consertar o quadril fraturado. Durante parte do tempo
hospitalizada ela foi induzida ao coma.
De volta à Argentina, passou por outra cirurgia em Buenos Aires. Desde então ela realiza atividades de
reabilitação para voltar à andar normalmente. Em depoimento ao jornal El Territorio, destacou que o segredo é manter a mente positiva e tentar esquecer o que
aconteceu, além de ter apoio psicológico. Dois estudantes tiveram sequelas graves. Um deles teve a mão amputada e o outro o braço amputado.
Ainda na madrugada os pais dos estudantes foram avisados e partiram para o Brasil. "Foram outros momentos marcantes, quando pais e mães nos perguntaram sobre a
situação dos filhos", cita Bieger, que também é mãe. "Foi difícil falar das amputações e dos óbitos",
complementa a profissional.
Coleta de provas e motorista preso
Outra equipe que rapidamente chegou ao acidente foi da Delegacia de
Pronto Atendimento de São Luiz Gonzaga (DPPA). Era a primeira noite com reforço de policiais da operação Fronteira, que foram acionados para atender ao caso,
recorda a delegada Elaine Maria Schons, plantonista da região naquele dia.
"Foi um trabalho que nos exigiu muito, porque os envolvidos eram argentinos e
logo partiriam", explica Elaine. "Nos esforçamos para colher as provas, ouvir as pessoas e fazer toda a apuração", detalha a delegada. Ela prendeu em
flagrante o motorista do coletivo, que foi solto pela justiça pouco tempo depois. "No meu entendimento ele agiu de forma negligente na condução do
veículo", argumenta Schons. No inquérito, ela indiciou o condutor Lucas Matías Fernandez por homicídio culposo, após reunir todos os elementos
necessários, como as perícias e outras provas apuradas.
Processo está parado no Ministério Público
O inquérito está em tramitação na justiça desde o início do ano. Desde junho não há movimentação no
processo, que está parado no Ministério Público. Segundo o promotor Marcos Lamin, titular da Promotoria de Justiça Criminal, a demanda de trabalho existente
não permitiu ainda a análise do caso. Ele citou que neste foram cerca de 1,6 mil inquéritos atendidos. "Havia uma demanda parada muito grande, tivemos que atender
tudo isso", argumenta o promotor, citando que nos últimos dois meses a agenda estava lotada com audiências relacionadas à grandes operações com
presos.
Lamin acredita que em fevereiro poderá dar andamento no processo, para analisar se irá oferecer ou não à denúncia à
justiça. A pena para o crime de homicídio culposo varia de seis a 20 anos de prisão. O trâmite ainda deve ser longo até a solução do
caso.
O que diz a defesa
O advogado Heleno Andrade de Matos, que representa o motorista e a empresa responsável pelo
transporte, informou à reportagem da Rádio Missioneira que seus clientes estão colaborando com a justiça. "A empresa prestou toda a assistência
às vítimas e no andamento do processo", afirmou o advogado. O motorista não foi demitido, porém não dirige mais. "Na Argentina as leis
são diferentes, ele ficou proibido pela justiça de dirigir", explicou Heleno.
Ele ainda destacou que aguarda o andamento do processo."Tudo
será apurado dentro do tempo com os órgãos competentes", pontuou Andrade. Ele ainda acrescentou que irá discutir a informação de
superlotação do coletivo e reiterou que o motorista estava dentro da velocidade permitida. "Trabalhamos com a ideia de que foi uma fatalidade", finalizou
Matos.