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30/08/2014 | 21:08 | Cultura

Missioneiros gaúchos reinventam a tradição pela música

Jovens músicos aproximam as novas gerações da cultura gaúcha através dos ritmos gaudérios

Jovens músicos aproximam as novas gerações da cultura gaúcha através dos ritmos gaudérios
A cantora Mariana Marques ensaia a gravação do primeiro disco (Foto: Andressa Camargo / Divulgação)
O conservadorismo da tradição gaúcha não é empecilho para a cantora Mariana Marques, 22 anos, pisar no palco dos festivais com lábios pintados de vermelho. Enfeitar-se com acessórios e bordados e abusar nas cores e estampas étnicas que escolhe com a ajuda de uma personal stylist é parte importante de seu estilo folk.
A fusão das culturas gaúcha, argentina e indígena influencia mais do que o visual: está na performance da cantora que ensaia a gravação do primeiro disco.
- Consegui um meio-termo. Desde os três anos dançava e cantava na entidade tradicionalista. Participei do Enart, fui prenda em CTG. Isso faz parte do mesmo círculo. Eu sou essa mescla - disse.
O modo de se vestir nunca a fez ser barrada nos bailes. Hábitos que podem agredir a cultura gaúcha, como usar saia curta, por exemplo, mantêm-se longe:
- Não mostro o que não devo para não afrontar aquilo que trago de casa.
Mais do que ter um visual descolado, criar um estilo musical próprio foi a forma de se aproximar do público jovem.
Quem escuta Mariana cantar e tocar lembra, por alto, dos graves lendários da argentina Mercedes Sosa. Quem vê a irreverência dos arranjos, no entanto, percebe uma reinvenção na fórmula da música regional latino-americana:
- Nós, jovens, temos a gana de inovar. Temos de ponderar e, aos poucos, colocar as coisas que a gente quer.
Com a agenda lotada e shows quase todos os finais de semana, principalmente na região missioneira, acabou distanciando-se do CTG que frequentava em Ajuricaba, no Noroeste. Não por isto deixou de valorizar o tradicionalismo, tanto que, para a Semana Farroupilha, tem vários eventos marcados - inclusive no palco principal do Acampamento Farroupilha, no dia 11, quando divide a cena com Luis Carlos Borges, produtor de seu disco.
Incentivador de novos artistas, o cantor, compositor, gaiteiro, produtor musical e um dos maiores ícones do nativismo, Borges fica feliz ao ver que estão dando continuidade aos valores que transmitiu. Aos 61 anos, ele acredita que a renovação é saudável e necessária:
- Costumo dizer a eles: não esqueçam a raiz, mas sem acompanhar as inovações, não se avança.
Violeiro de Mariana e Borges, Yuri Menezes, 24 anos, tem outra explicação para a distância que separa os jovens dos costumes gaúchos: a falta de base cultural familiar.
- Empurrar o filho para o computador é mais fácil. Por isso tem muito jovem carente de tradição. Meu pai nunca me forçou a ouvir nada - relembra.
Outra polêmica envolvendo a música é a tchê music. O pavor de ser invadido por estrangeirismos fez com que o ritmo fosse enxotado dos galpões. Em defesa, Tiago Silva, 27 anos, diz que não se trata de uma música da nossa tradição. Dançarino de invernada, se diz um apreciador do gênero, mas em festas, e não em bailes.
- Tudo chega de fora e aqui se "agaúcha". No caso da tchê, eles pegaram um ritmo genuíno e transformaram em baião. Não dá para deixar entrar mesmo - defende.
Fonte: Zero Hora
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