Embora o avanço da covid-19 no Interior ainda não assuste, levantamento de GaúchaZH junto aos 17 municípios gaúchos mais populosos depois de Porto Alegre aponta para um futuro com risco de sobrecarga em leitos que podem definir o futuro dos pacientes que apresentarem casos mais graves da doença.
Ainda que muitas cidades estejam reforçando leitos de internação em estruturas provisórias, uma barreira mais complexa a ser enfrentada é a escassez de leitos nas unidades de tratamento intensivo (UTIs), aliada ao inverno gaúcho, tradicional colaborador das lotações hospitalares.
O levantamento foi feito entre os dias 7 e 9. Às prefeituras, foi enviado questionário sobre o número de leitos de UTI privadas e do SUS, taxa de ocupação e número de pacientes suspeitos ou com confirmação de covid-19 que já estão em tratamento intensivo. Também foi questionada a quantidade de respiradores de cada cidade. Todos responderam, embora algumas secretarias de Saúde não tenham fornecido o grau de detalhamento solicitado. O levantamento desconsiderou os leitos de UTI pediátrica e neonatal.
Hoje, pacientes e suspeitos de infecção pelo coronavírus ocupam 68 dos 652 leitos de UTI somados. O número ainda não é alto, mas se casos graves se acumularem, sobrecarregarão com rapidez um sistema que já opera próximo do limite: das 17 cidades, 13 operam com a capacidade de lotação acima de 50% e sete já ultrapassam os 80%.
Três cidades do Interior já estão com todos os leitos de terapia intensiva ocupados: Pelotas, Rio Grande e Gravataí. O secretário de Saúde de Gravataí, Jean Torman, afirma que se a cidade tivesse mais 20 leitos de UTI, ainda assim a taxa de ocupação seria de 100%:
— Não dá para gente só contar com leitos do Estado com referência em Porto Alegre. Não conseguimos olhar para um cenário em que não haverá esgotamento nas UTIs.
Para atenuar a falta, a prefeitura vai erguer uma estrutura provisória, ao lado do Hospital Dom João Becker, com 10 leitos tecnicamente "idênticos" ao de um UTI, nas palavras de Torman, com respirador, ventilador, médico intensivista e monitor.
Os 10 leitos UTIs do Hospital Municipal de Novo Hamburgo estão ocupados, três deles por pacientes com covid-19, além disso, a instituição possui 52 respiradores. A cidade ainda conta com leitos privados disponíveis:
— É realmente muito apertado. Porque as pessoas seguem se acidentando, tendo doenças cardíacas, tendo AVC e outras morbidades. Nada disso para de acontecer e agora tem mais o coronavírus — afirma Ráfaga Fontoura, presidente da Fundação de Saúde de NH, entidade que administra o hospital.
O avanço da pandemia fez com que os municípios corressem atrás de estruturas de alta complexidade. Pelotas, no sul do Estado, transformará uma UPA inacabada em um Centro de Atendimento a Síndromes Gripais, com quatro leitos de UTI, a ser inaugurado nos próximos dias. Na quarta-feira (8), o município comemorou a chegada de mais sete respiradores.
Cachoeirinha teve de ir atrás dos primeiro leitos para os seus 130 mil habitantes. Ainda sem casos suspeitos da covid-19, espera contar com 10 leitos com respiradores, divididos entre um hospital de campanha e as duas UPAs do município.
— É uma corrida, e cheia de burocracias no processo. Certamente haverá agravamento de casos, então a gente conta com o sucesso do isolamento social para estamos preparados para quando isso ocorrer — resume Carlos Pilz, supervisor de ações de saúde do município.