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07/03/2021 | 06:56 | Saúde

Entenda o drama dos médicos com a falta de respiradores no Hospital de Clínicas

Pacientes com covid exigem equipamentos de alta performance, por isso não basta olhar apenas os números

Pacientes com covid exigem equipamentos de alta performance, por isso não basta olhar apenas os números
UTI do Hospital de Clínicas: pacientes com coronavírus precisam de ventiladores potentes por longo tempo - Silvio Ávila / HCPA/Divulgação

Faltam ou não faltam respiradores no Hospital de Clínicas e em outras instituições do Estado? O alerta de "colapso total na saúde do Rio Grande do Sul", com a falta de ventiladores no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e a improvisação em outras UTIs, foi feito em rede social na noite de sábado (6) pelo infectologista Alexandre Zavascki. Zavascki escreveu o post no Twitter com base em uma afirmação da presidente do Hospital de Clínicas, Nadine Clausell.


Como o site do governo do Estado que reúne as informações sobre a situação em todos os hospitais mostra que há respiradores disponíveis, restou a dúvida: quem tem razão?


A epidemiologista Jeruza Lavanholi Neyeloff, assessora na Diretoria Médica do Clínicas, esclarece: o problema não é o número, mas o tipo de ventilador exigido pelos pacientes infectados pelo coronavírus, que têm comprometimento pulmonar grave e precisam de equipamentos de alta performance. São esses os que estão em falta, não apenas no Clínicas, mas em outros hospitais e no mercado. Isso significa que, mesmo que alguém se disponha a comprar, os fornecedores não conseguem entregar no curto prazo.

 

– Os números do site do governo estão certos. Temos ventiladores disponíveis, mas não em quantidade suficiente do tipo que precisamos agora – explica Jeruza.

 

A médica esclarece que quando se monta uma UTI, leva-se em conta o mix de pacientes de que precisarão de ventilação mecânica: leves, moderados, graves e gravíssimos:

 

– Alguns pacientes são mais difíceis de ventilar. Temos de levar em conta uma série de parâmetros, como pressões, volume e fluxos. Não basta ligar a máquina e apertar o play. Mesmo os pacientes que já deixaram a UTI e estão na chamada "área limpa", porque não transmitem mais, precisam continuar em ventilação mecânica.


O Clínicas tem 167 ventiladores para uso em adultos. Desses, 22 são de anestesia, usados para ventilação por curtos períodos de tempo, e 145 são adequados para ventilação mecânica  continuada. Desses 145, 105 são considerados de alta performance (aparelhos Evita XL, Servo-Air, Servo-S e Servo-I). No hospital, conforme o paciente evolui, troca-se o respirador para que o mais potente seja usado em outro que está em situação mais grave.

 

Na sexta-feira (5), havia 185 pacientes sendo atendidos em leitos críticos (132 covid e 53 não-covid). Destes, 109 estavam em ventilação mecânica, a maioria tendo covid como doença básica. 

 

O Hospital de Clínicas divulgou nota esclarecendo a situação. Confira a íntegra:

 

"O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) é referência para o tratamento de covid-19, recebendo atualmente grande número de pacientes críticos de Porto Alegre, de sua região metropolitana e do interior do estado. O hospital pactuou com os gestores um total de 105 leitos críticos dedicados ao atendimento de pacientes com covid-19, porém na prática, nos últimos dias, já vem trabalhando com maior número de leitos: em 5 de março havia na instituição 132 pacientes em leitos críticos - ou seja, 27 pacientes críticos estavam em leitos extras, instalados no próprio CTI e também na Emergência, o que representa uma ocupação de 126%.

 Pela extrema gravidade dos pacientes que são admitidos nas UTIs do HCPA, a taxa de ventilação mecânica invasiva é alta, chegando a 80% em determinados momentos. É importante ressaltar que os pacientes com covid-19 possuem doença pulmonar grave, necessitando de ventiladores de alta performance por longo período para que possam ser adequadamente tratados - aparelhos mais antigos ou mais simples, que são adequados para tratar pacientes sem patologia pulmonar, não são suficientes para a ventilação mecânica desses pacientes.

 Em resposta aos picos anteriores de demanda por atendimento à covid-19, o hospital deslocou ventiladores de alta performance para a área covid e manteve os demais aparelhos nas outras áreas críticas. Porém, nesse momento, a demanda ultrapassa a capacidade de resposta hospitalar mesmo com realocações e compras emergenciais de equipamentos.

 Além dos 122 pacientes em leitos críticos covid-19, cerca de um terço dos 53 pacientes em leitos críticos das áreas não covid-19 está ocupado por pacientes covid não-contaminantes (aqueles que internaram pela doença, já passaram o período contaminante, mas ainda precisam de cuidados intensivos). O total de pacientes críticos em ventilação mecânica da instituição é de 109, e há também, em leitos de enfermaria, 34 pacientes em suporte ventilatório não invasivo - pacientes que também deveriam estar em ambientes de tratamento crítico, que têm risco de apresentarem piora em seus quadros clínicos e necessitarem uso de ventilação mecânica. 

Dentre os 167 ventiladores do hospital cadastrados para uso adulto, 145 são adequados para ventilação mecânica continuada e 109 são considerados de alta performance. Nesse contexto, o HCPA solicitou auxílio aos gestores municipais e estaduais para aquisição de equipamentos com características técnicas que atendam às necessidades dos pacientes com covid-19, e segue realizando esforços para suprir a demanda e garantir a assistência. 

Resumo dos números: 

- O HCPA tem 167 ventiladores cadastrados no CNES para uso em adultos; 

- Desses, 22 são ventiladores de anestesia, usados para ventilação por curtos períodos de tempo, e 145 são adequados para ventilação mecânica continuada; 

- Um total de 105 ventiladores são considerados de alta performance (Aparelhos Evita XL, SERVO-AIR, SERVO-S, SERVO-I.); - Em 5 de março havia um total de 185 pacientes sendo atendidos em leitos críticos (132 covid e 53 não-covid); destes, 109 estavam em ventilação mecânica, a maioria tendo covid-19 como doença de base (74 pacientes em leitos críticos covid e 20 pacientes covid-19 não contaminantes, em leitos críticos nas outras áreas críticas)."

Fonte: GZH
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