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15/12/2022 | 06:44 | Educação

Incentivo federal a escolas cívico-militares deve acabar em 2023, mas redes do RS poderão manter o modelo

Implementação de novas instituições foi suspensa em novembro pela Justiça gaúcha, mas as 43 existentes seguem funcionando

Implementação de novas instituições foi suspensa em novembro pela Justiça gaúcha, mas as 43 existentes seguem funcionando
Reprodução internet

De acordo com Aline Cunha, que é professora associada e vice-diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o investimento mínimo em um estudante é de em torno de R$ 3,2 mil em uma escola pública brasileira, enquanto nos colégios militares esse valor sobe para R$ 19 mil.  

— Inicialmente, a proposta do atual presidente (Bolsonaro) era implementar 16 colégios militares em capitais que não tinham essa instituição, que está no imaginário social, com toda a sua qualidade de ensino. Mas isso não ocorreu, e nem o alto investimento previsto, de R$ 320 milhões por ano. No entanto, não se explicitou para a população a diferença entre o modelo proposto e o implementado — destaca Aline.

Pesquisadora sobre a militarização da educação, Iana Gomes de Lima, que é professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRGS, destaca que outra diferença importante entre a escola pública regular e os colégios militares é que, na escola pública, não é necessário passar por um processo seletivo difícil para ingressar. Com isso, é natural que os estudantes aprovados acabem se saindo melhor nas avaliações.

— O programa é muito calcado nessa ideia de que as escolas cívico-militares terão a qualidade dos colégios militares, mas a gente sabe que isso é totalmente falso, porque a gente está falando de escolas públicas que são plurais, pra todos e pra todas, e que vão seguir tendo um investimento muito pequeno. O próprio salário dos professores de colégios militares é muito maior do que o de docentes de escolas públicas — defende Iana.

Para aderir ao Pecim, a escola precisa estar em áreas com situação de vulnerabilidade social e com baixo desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Também precisa oferecer os Anos Finais do Ensino Fundamental e/ou o Ensino Médio, preferencialmente atender de 500 a mil estudantes nos dois turnos e contar com a aprovação da comunidade escolar para a implantação do modelo.

Presença de militares da reserva
Algumas das principais características das escolas cívico-militares são o uso, pelos estudantes, de fardas e uniformes, e a presença de monitores focados no trabalho disciplinar com os alunos, função desempenhada por militares da reserva. Diretora do Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-diretora de Educação do Banco Mundial, Claudia Costin é integrante da equipe de transição do governo federal, como especialista na área de educação, e discorda da presença desses profissionais nas instituições.

— São PMs ou bombeiros reformados que vendem seus serviços para escolas públicas, com a promessa de que vão garantir a disciplina. Para o século 21 isso não faz sentido nenhum. A curto prazo a aprendizagem até melhora, se você impuser a disciplina com mão forte, mas não será a aprendizagem que importa — avalia Claudia, referindo-se ao desenvolvimento de competências cognitivas para os jovens atuarem em funções que não serão substituídas por inteligência artificial.

A especialista relata que o modelo de escolas cívico-militares não é utilizado nos países que se saem melhor em avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).

A atribuição de características militares como hierarquia e disciplina à resolução de problemas na educação nacional preocupa Aline, que salienta que o campo da educação trabalha com uma perspectiva democrática que tem outros propósitos.

— O que se quer alcançar com o sujeito na educação é diferente do que se quer na prestação de um serviço militar. Esse paralelo é, na sua origem, equivocado. No âmbito militar, qualquer comportamento civil é considerado rebeldia, subversão, uma concepção de educação que nós buscamos superar na abertura democrática, com a Constituição de 1988 e, sobretudo, na Lei de Diretrizes e Bases, em 1996 — pontua a vice-diretora da Faced.

Segundo Iana, os militares que atuam como monitores não passaram por capacitações para trabalhar em escolas, o que acaba gerando conflitos e divergências de entendimento sobre o que é disciplina.

— Todo professor deseja uma turma respeitosa, mas a ideia de disciplina que construímos junto com alunos e alunas é pautada em princípios muito diferentes dos militares. A gente quer que eles e elas entendam que o que estão fazendo envolve respeito, pluralidade, diferença e coletividade, e não que façam isso por medo ou por uma questão autoritária — afirma a pesquisadora.

A construção de uma relação baseada no diálogo e na reciprocidade entre professor e alunos que, por vezes, são vistos como indisciplinados, frequentemente, conforme Aline, faz com que aquele estudante deixe de abandonar a escola ou de se tornar um multirrepetente.

Veja a lista das 43 escolas cívico-militares já implementadas no RS:

  1. Alegrete - IEE Osvaldo Aranha
  2. Alvorada - EEEM Carlos Drummond de Andrade
  3. Arvorezinha - EMEF Orestes de Britto Scheffer
  4. Balneário Pinhal - EMEF Luiz de Oliveira
  5. Cacequi - EMEF Cândido José Vaz
  6. Cachoeira do Sul - EEEF Rio Jacui
  7. Cachoeira do Sul - EMEF Dinah Neri Pereira
  8. Canela - EEEM Adolfo Seibt
  9. Canoas - EMEF Ícaro
  10. Carazinho - EMEF Eulália Vargas Albuquerque
  11. Casca - Escola nova (ainda não nomeada)
  12. Caxias do Sul - EEEM Alexandre Zattera
  13. Coronel Bicaco - EMEF Rui Barbosa
  14. Cruz Alta - EMEF Intendente Vasconcellos Pinto
  15. Dom Pedrito - EMEF Alda Seabra
  16. Frederico Westphalen - EMEF Irmã Odila Lehnen
  17. Garibaldi - EMEF Attílio Tosin
  18. Gravataí - EMEF Murialdo
  19. Ibiaçá - EMEF Ricardo Durigon
  20. Ijuí - IME Assis Brasil
  21. Júlio de Castilhos - EMEF Miguel Waihrich Filho
  22. Lagoa Vermelha - EMEF Diógenes Euclides da Cunha
  23. Novo Hamburgo - EEEM Osvaldo Aranha
  24. Porto Alegre - EEEM Visconde do Rio Grande
  25. Rosário do Sul - EEEF Padre José de Anchieta
  26. Santa Cruz do Sul - EEEM Santa Cruz
  27. Santana do Livramento - EMEF João Souto Duarte
  28. Sapucaia do Sul - EMEF Alberto Santos Dumont
  29. Tramandaí - EEEM Nossa Senhora Aparecida
  30. Quaraí - IEE Doutor Luiz Pacheco Prates
  31. Sananduva - EMEF Santa Teresinha
  32. Santa Rosa - EMEF Coronel Raul Oliveira
  33. Santo Augusto - EMEF São João
  34. São Borja - EEEM Apparicio Silva Rillo
  35. São Borja - EMEF Duque de Caxias
  36. São Gabriel - EMEF Caic Menino Jesus
  37. São Leopoldo - EEEM Cristo Rei
  38. São Miguel das Missões - EMEF Professor João de Oliveira Costa
  39. São Vicente do Sul - EMEF Coqueiros
  40. Três Passos - EMEF João Padilha do Nascimento
  41. Tupanciretã - EMEF Coronel Marcial Terra
  42. Uruguaiana - EMEF Elvira Ceratti
  43. Vicente Dutra - EMEF Érico Veríssimo
Fonte: GZH
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