25/07/2024 | 06:29 | Geral
Dois séculos após a chegada dos pioneiros e o estabelecimento da primeira colônia rural-militar em São Leopoldo, diversas tradições e costumes seguem preservados
Os primeiros imigrantes germânicos no Rio Grande do Sul desembarcaram em Porto Alegre em 18 de julho de 1824. No dia 25, 39 chegaram a São Leopoldo (que ainda pertencia à Capital), onde estabeleceriam a primeira colônia rural-militar do Brasil, já independente. Agricultores, artesãos e profissionais liberais construiriam ali os alicerces que definiriam o futuro de milhares de famílias gaúchas.
Exatos dois séculos após a chegada dos pioneiros, diversas tradições seguem preservadas - o legado, portanto, permanece vivo. O café colonial preparado com esmero e posto à mesa da família Schneider, em Dois Irmãos, no Vale do Sinos, é prova disso. Jaqueline, 49 anos, cuidadora de crianças, é a responsável pelas receitas do lar. Na residência, a variante Hunsrückisch e o português alternam-se livremente – a língua germânica facilitou as viagens do filho Alan Kuhn, 32, à Alemanha, ainda que a cultura do país seja hoje distinta da dos antepassados.
Ativa e engajada, a viúva Marlene Schneider, 73, participa de três corais, do grupo de danças típicas alemãs, além de outras atividades e ações para ajudar a comunidade, e luta para manter os costumes vivos. A aposentada produz spritzbier (bebida gaseificada germânica), inclusive em grandes quantidades para os eventos da cidade, como o Kerb de São Miguel, do qual a família participa com entusiasmo.
— É uma tradição dos antepassados que a gente nunca pode perder, jamais. Tem muita gente que não dá mais bola para essas coisas, mas tem de manter — afirma Marlene, que se orgulha da herança germânica.
Na pequena bagagem carregada para o Brasil, os pioneiros trouxeram diversas contribuições ao RS. Historiador e autor do livro sobre a imigração alemã 1824, Rodrigo Trespach destaca, principalmente, a educação como fator de transformação; a religião protestante, com o estabelecimento da primeira igreja não católica no Brasil; a valorização do trabalho; o espírito de comunidade; o senso de associativismo e cooperativismo; e, posteriormente, o desenvolvimento da culinária – como waffle e compotas – e arquitetura típicas, bem como clubes e sociedades (de ginástica, bolão, tiro, entre outros). Felipe Kuhn Braun, pesquisador sobre a imigração alemã e detentor de um acervo de 45 mil fotos antigas, enfatiza ainda o comércio e a indústria; e os grupos folclóricos e corais, mais recentes.
Em Westfália, muitos ainda preservam elementos da cultura dos antepassados. Na cidade do Vale do Taquari, a língua co-oficial é a variante westfaliana Plattdüütsk, conhecida como Sapato de Pau – em homenagem à tradicional peça trazida pelos imigrantes para se abrigar do frio e umidade. Além da língua, a família da produtora rural Taila Ahlert, 29, cultiva o hábito da agricultura, de criar a própria carne e da comida caseira.
Os costumes são ensinados desde a infância – a família guarda um caderno com receitas que passam de geração a geração, com carinho. Taila se alegra também por viver em comunidade e participar do grupo de danças folclóricas com sapato de pau, Westfälische Tanzgruppe, do qual é coordenadora.
— Duzentos anos são muito, mas vendo o que hoje ainda é cultivado na questão da tradição alemã, a gente vê muito forte ainda essa cultura aqui na região. É muito importante que a gente evidencie isso para que possam passar mais 200 anos e a gente consiga ainda estar cultivando as tradições — ressalta Taila, que partirá em uma turnê na Alemanha com o grupo de dança, levando, pela primeira vez, a tradição alemã de volta, ao invés da cultura brasileira, com um show sobre o bicentenário.
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