22/06/2025 | 19:25 | Geral
Guerra Israel x Irã gera possibilidade de uso desse tipo de artefato por extremistas, de vazamentos radioativos ou, ainda, em probabilidade menor, de conflitos entre potências com ogivas atômicas
Em 2025 se completam 80 anos da primeira e única vez em que a energia nuclear foi usada como arma. A morte de 340 mil pessoas atingidas por duas bombas atômicas norte-americanas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, gerou a rendição do Japão e o consequente fim da Segunda Guerra Mundial. E um temor colateral: o da extinção do planeta, caso outras guerras viessem a ser travadas com esse tipo de armamento de destruição em massa.
É justo nesse aniversário que o risco de retorno desse tipo de artefato cresceu exponencialmente, com o conflito iniciado nos últimos dias entre Israel e Irã, agregado ao apoio decisivo dos EUA aos israelenses.
O receio de um desastre nuclear, mais que um conflito travado propositalmente com essa tecnologia, é bastante fundamentado. Desde o fim da Segunda Guerra foram construídas cerca de 70 mil ogivas atômicas, suficientes para exterminar a raça humana, várias vezes. Alarmadas com essa possibilidade, as nações mais ricas estimularam uma redução nesse tipo de arsenal, com destruição e desmonte de milhares de bombas.
Mesmo assim, ainda existem 12.241 armas nucleares no planeta. E não se sabe o grau de proteção com que muitas delas contam. Os Estados Unidos e a Rússia armazenam cerca de 90% desse arsenal, conforme dados de março de 2025. Outros países que integram esse mortífero e seleto clube nuclear são China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte, sendo que os quatro últimos da lista não divulgam detalhes ou números referentes a esse armamento.
A reportagem ouviu especialistas a respeito do cenário geopolítico atual. Um deles é o engenheiro Gerardo Portela, que durante cinco anos atuou como operador de Reator Nuclear na usina de Angra II (RJ). Fez isso como pesquisador do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares IPEN e pelo Centro Tecnológico da Marinha do Brasil em São Paulo (CTMSP). PhD com tese em Gerenciamento de Riscos pela COPPE UFRJ, ele considera alta a probabilidade de vazamentos radioativos desde a última semana, marcada por ataques a bomba a três centrais nucleares iranianas.
Portela ressalta que os ataques militares a instalações atômicas iranianas foram os maiores desde a Segunda Guerra Mundial. Na guerra Rússia x Ucrânia, os russos chegaram a jogar bombas na usina nuclear ucraniana de Zaporizhzhya, mas só em prédios administrativos ou de treinamento, bem distantes do reator, diferencia o especialista. Isso porque os dois países, limítrofes, sabem das consequências radioativas desse tipo de bombardeio e não desejam um desastre. Apesar de tentar dominar a área, os russos deixaram a usina funcionando plenamente. A intenção é controlá-la, não destruí-la, resume.
Já os ataques israelenses e norte-americanos às usinas iranianas aconteceram com objetivo destrutivo, porque enxergam elas como ameaça. Além de produzir energia elétrica, as centrais estavam a um passo de fabricar armas nucleares, alega Israel.
Como se fabrica a bomba nuclear? Na natureza se encontra em abundância o urânio com isótopo 238 e, em quantia ínfima, o mesmo mineral com isótopo 235. Para uma bomba é preciso enriquecer este último tipo em 90%. O Irã conseguiu, segundo agências internacionais, graduação de 60%. Faltava pouco para a arma nuclear, justificou Israel, ao atacar antes de ser atacada.
A usina de Arak, atingida sexta-feira (20), por exemplo, funciona com água pesada (deutério) e produz grande quantidade de plutônio, a partir da fissão do urânio. O plutônio é a matéria-prima para a bomba. No Brasil, apoiador de acordos de não proliferação desse tipo de minério, as usinas o produzem em pequeníssima proporção e sob supervisão constante da Agência Internacional de Energia Atômica, algo que não vinha ocorrendo no Irã. Outra diferença é que as usinas brasileiras usam água não-radiativa no resfriamento. Mesmo assim, é proibido qualquer sobrevoo sobre elas, sob pena da aeronave ser abatida.
Gerardo Portela divide em três tipos os riscos de bombardeio de usinas nucleares, como o que aconteceu.
O especialista diz que esse perigo existe, mas é baixo. Considera que os países sabem que uma escalada nuclear traria extinção. O problema é que a instabilidade de alguns líderes, como Donald Trump e Vladimir Putin, enseja riscos.
Portela destaca que até o momento não há sinal de vazamentos de radiação vindos das centrais nucleares bombardeadas no Irã. O problema é que não se sabe quantos bombardeios vão aguentar, por isso há um risco importante para a população. Além de mortes pelas explosões, o advento de uma nuvem radioativa pode matar milhares no entorno das usinas (como aconteceu em Chernobyl, na Ucrânia, em 1986).
Esse é o risco que Portela considera mais elevado, porque é difícil a uma grande potência controlar pequenos grupos radicalizados. O urânio continua nas profundezas das usinas iranianas, mesmo após o bombardeio. "O que impede que seja retirado de lá, enriquecido e futuramente colocado em ogivas, com objetivo terrorista?", questiona o especialista.
ZH ouviu também Eduardo Munhoz Svartman, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor de Ciência Política e Estudos Estratégicos Internacionais na UFRGS. Ele se mostra um pouco menos pessimista. Como o Irã não possui arsenal atômico, o especialista não enxerga risco de guerra nuclear e tampouco acredita numa escalada regional do conflito. Isso porque muitos países muçulmanos que não apoiam Israel tampouco são aliados do Irã.
— Ainda que o ministro das Relações Exteriores do Irã esteja rumando para Moscou, apelando por socorro, não creio em ajuda mais significativa de Rússia e China aos iranianos. A provável retaliação do Irã será com os meios disponíveis no momento, como uso de mísseis, inclusive contra instalações norte-americanas na região. E ações assimétricas, normalmente chamadas de terrorismo.
Quanto a terrorismo com armas nucleares, Svartman considera pouco provável. Até porque isso geraria uma resposta nuclear dos EUA ou Israel sobre Teerã.
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