22/11/2025 | 18:17 | Geral
Presidência brasileira vai trabalhar, paralelamente, para buscar avanços ao longo de 11 meses
O documento mais importante da COP30, em Belém, excluiu o chamado "mapa do caminho" para a redução gradual do uso de combustíveis fósseis.
O tema não estava na ordem do dia da conferência, mas acabou ganhando tração a partir de falas de líderes internacionais, a começar pelo presidente Lula. Nas últimas semanas, o tema acabou sendo incluindo em um rascunho de pacote chamado de "mutirão". No entanto, neste sábado (22), após várias divergências, foi retirado do texto de forma definitiva.
Nações produtoras e exportadoras de petróleo, gás e carvão, ameaçaram implodir a negociação, caso o tema seguisse no documento. Um novo rascunho foi apresentado na sexta-feira (21), já sem a menção ao fim dos fósseis.
Esse texto foi o que vingou.
O documento final, aprovado na tarde deste sábado (22), após a construção de um acordo durante a madrugada, atende a interesses de países exportadores de petróleo e vai ao encontro dos desejos da Europa, com uma redação branda para o aumento de recursos para adaptação - assim, a UE, que queria um texto mais ambicioso em relação ao fim dos fósseis, acabou aceitando a retirada do trecho para não se comprometer também com maior financiamento direcionado às nações em desenvolvimento, que exigem recursos para lidar com os eventos extremos, como tempestades, enchentes e ondas de calor.
O resultado foi de acomodação. As decisões de uma COP sempre são por consenso - os 198 países ou partes precisam concordar com os termos, de forma unânime.
O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, afirmou que o Brasil trabalhará, até a próxima conferência, em novembro, na Turquia (COP21), para a implementação do chamado mapa do caminho sobre fósseis. Durante a reunião plenária que encerrou a COP de Belém, ele afirmou que um grupo de trabalho liderado "pela ciência” será criado para orientar o "roadmap". Acrescentou que uma cúpula específica para o fim dos fósseis será organizada em abril de 2026, na Colômbia.
No documento final da COP30 também não consta nenhum tipo de termo sobre acabar com o desmatamento foi citado. A ausência chama atenção em um evento que teve como ponto de destaque a localização, no coração da Floresta Amazônica.
Entretanto, o documento trouxe um reconhecimento inédito da importância das comunidades afrodescedentes e dos territórios indígenas no combate às mudanças climáticas. Também menciona questões de gênero.
Sobre o tema do financiamento climático, o texto teve um leve avanço - as nações deverão fazer esforços para triplicar recursos até 2035, mas não estabelece valores, o que atende às exigências da União Europeia.
Outro tema fundamental da COP30 era a questão da adaptação dos países aos eventos extremos, como enchentes, ondas de calor, entre outros. Esperava-se uma lista de indicadores de como medir a forma como as nações têm se adaptado à mudança do clima: eram cem parâmetros inicialmente, mas foram aprovados cerca de 60.
A decisão de mutirão foi uma estratégia da presidência da COP30, exercida pelo Brasil até novembro do ano que vem, para reunir os quatro temas mais polêmicos das negociações climáticas: financiamento, metas mais ambiciosas de descarbonização, as medidas unilaterais de comércio e os relatórios de transparência.
No entanto, o documento final frustra boa parte de ambientalistas e cientistas. Eles alimentaram, nas últimas duas semanas, a esperança de um texto ambicioso do ponto de vista climático.
O Greenpeace, por exemplo, disse que "a decisão da presidência de criar os dois mapas do caminhos tem gosto de prêmio de consolação".
- É claro que isso permitirá que o trabalho siga no ano que vem, e que o momentum criado em Belém não se perca. Devemos seguir, mas é importante que esses mapas do caminho mostrem mais do que apenas uma direção. E que a COP31 dê continuidade a esse trabalho nas negociações formais do ano que vem - disse a diretora-executiva da organização, Carolina Pasquali.
O presidente da Iniciativa do Tratado sobre Combustíveis Fósseis, Kumi Naidoo, declarou que o resultado da COP30 ficou muito aquém do que o mundo precisa.
- As regras de procedimentos da UNFCCC claramente não estão mais funcionando. Não podemos nos dar ao luxo de esperar mais um ano por outro sinal político fraco, enquanto as comunidades queimam e se afogam - argumentou.
Carlos Nobre, um dos principais cientistas brasileiros, afirmou, junto a outros pesquisadores internacionais:
- A verdade é que não há como evitar um perigoso aumento da temperatura global sem acabarmos com a dependência de combustíveis fósseis até 2040, ou, no mais tardar, até 2045. Não cumprir isso, empurrará o mundo para uma perigosa mudança climática dentro de cinco a 10 anos.
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