04/01/2026 | 08:00 | Saúde
Estima-se que cerca de 546 mil pessoas percam a vida todos os anos no mundo por causas relacionadas ao calor
As ondas de calor estão mais frequentes, intensas e longas no Brasil, e esse fenômeno já cobra um preço alto em vidas. Entre os anos de 2000 e 2018, cerca de 48 mil brasileiros morreram em consequência direta de ondas de calor, número superior ao de óbitos causados por deslizamentos de terra no mesmo período, por exemplo.
Os dados fazem parte de um estudo publicado na revista científica Plos One, que analisou informações das 14 regiões metropolitanas mais populosas do país, onde vivem aproximadamente 74 milhões de pessoas, o equivalente a 35% da população brasileira.
As mortes associadas ao calor extremo ocorreram principalmente por problemas circulatórios, doenças respiratórias e agravamento de condições crônicas.
O estudo também identificou grupos mais vulneráveis, com destaque para os idosos, especialmente as mulheres. E um dos fatores centrais que ajuda a explicar esse risco aumentado é a desidratação, muitas vezes silenciosa e subestimada.
O cenário brasileiro reflete uma crise global. Estima-se que cerca de 546 mil pessoas morram todos os anos no mundo por causas relacionadas ao calor, segundo o relatório Contagem Regressiva em Saúde e Mudanças Climáticas, elaborado por mais de 100 cientistas de diversos países para a revista The Lancet, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Publicado em outubro de 2025, o documento alerta que 2024 foi o ano mais quente da história, fazendo com que 12 dos 20 indicadores de risco à saúde associados às mudanças climáticas atingissem níveis sem precedentes.
Entre 2020 e 2024, a população mundial foi exposta, em média, a 19 dias de ondas de calor por ano, e 16 deles não teriam ocorrido sem o aquecimento global.
No Brasil, os números reforçam a gravidade do problema. Estima-se que, entre 2012 e 2021, cerca de 3,6 mil mortes por ano tenham sido diretamente relacionadas ao calor.
A água é essencial para praticamente todas as funções do corpo humano, mas o envelhecimento torna ainda mais difícil lidar com a falta dela.
A partir dos 60 anos, ocorrem mudanças fisiológicas importantes: diminui a sensação de sede, o corpo perde água com mais facilidade e os rins tornam-se menos eficientes para concentrar a urina.
A desidratação, mesmo em grau leve, pode trazer consequências relevantes para a saúde do idoso. A função renal, por exemplo, depende diretamente de uma ingestão adequada de líquidos.
Beber pouca água aumenta o risco de infecções urinárias e formação de cálculos renais.
O cérebro também sente os efeitos. A desidratação leve está associada a confusão mental, delírio, piora da atenção e aumento do risco de quedas, um problema especialmente grave nessa faixa etária.
Outro impacto comum é no sistema digestivo. A ingestão insuficiente de líquidos contribui para a constipação intestinal, frequente em idosos.
Além disso, o desequilíbrio de água e eletrólitos pode levar a quadros como a hiponatremia, caracterizada pela baixa concentração de sódio no sangue, que pode causar fraqueza, náusea, confusão e, em casos graves, convulsões e morte.
Em períodos de calor extremo, todos esses riscos se intensificam.
De forma geral, conforme diretrizes de saúde internacionais, a recomendação prática para idosos é ingerir entre 1,5 e 2 litros de líquidos por dia, considerando água, chás, sucos e outras bebidas.
Esse volume pode (e deve) ser ajustado conforme o peso corporal, o nível de atividade física, a temperatura ambiente e a presença de doenças crônicas, como insuficiência cardíaca ou renal.
Em dias muito quentes, especialistas recomendam aumentar a ingestão em cerca de 20%, para compensar a perda adicional de líquidos pelo calor, mesmo quando o idoso não percebe que está transpirando.
Um sinal simples de boa hidratação é a urina: ela deve estar clara e em quantidade adequada. Urina escura, com odor forte ou em pequeno volume pode indicar desidratação.
As diretrizes da Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) reforçam que a hidratação deve ser tratada como parte central do cuidado com a pessoa idosa.
Segundo o documento:
Para reduzir o risco de desidratação na terceira idade, o papel da família é fundamental. Algumas atitudes simples no dia a dia fazem diferença:
Também é importante entender quando a desidratação exige mais atenção:
Convencer um idoso a beber água nem sempre é simples, mas algumas estratégias ajudam:
É importante atenção especial aos medicamentos. Diuréticos, laxantes, antidepressivos e alguns anti-hipertensivos podem aumentar a perda de líquidos e exigem ajuste na hidratação.
Casos leves podem ser tratados com aumento da ingestão de líquidos e, em algumas situações, com soro de reidratação oral ou água de coco natural.
No entanto, idosos com diabetes ou doença renal não devem usar soluções caseiras sem orientação médica.