17/03/2026 | 14:15 | Geral
Joseph Kent apresentou carta ao presidente nesta terça-feira (17)
A queda do primeiro integrante de alto escalão do governo Donald Trump escancara a existência de rupturas na Casa Branca sobre a guerra que Estados Unidos e Israel travam contra o Irã. Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, entregou nesta terça-feira (17) sua carta de renúncia ao presidente, expressando palavras duras:
"Não posso em são consciência apoiar a a guerra em andamento no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente a nossa nação, e está claro que nós começamos a essa guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano", diz Kent, no segundo parágrafo da carta.
"Apoio os valores e as políticas externas que o senhor defendeu nas suas campanhas de 2016, 2020 e 2024, e que implementou no seu primeiro mandato. Até junho de 2025, o senhor compreendeu que as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que roubava aos Estados Unidos as preciosas vidas dos nossos patriotas e esgotava a riqueza e a prosperidade da nossa nação.
Na sua primeira administração, o senhor compreendeu melhor do que qualquer presidente moderno como aplicar decisivamente o poder militar sem nos arrastar para guerras intermináveis. O senhor demonstrou isso ao matar Qasam Suleimani e ao derrotar o Estado Islâmico."
No documento, o diretor que está saindo deixa claro o sentimento que a coluna já havia identificado entre apoiadores de Trump: o risco de a Casa Branca repetir erros do passado, os fantasmas de Iraque e Afeganistão. Ao empreender a aventura contra o Irã, Trump está também rompendo promessas de campanha, àquelas que o levaram, inclusive, à consagração na eleição de 2016: pôr fim ao que chamava de "guerras eternas" dos EUA. Mais: ele prometeu não enviar os filhos dos americanos para morrerem em fronts distantes (as baixas até agora, entre militares dos EUA, chegam a pelo menos 13), em conflitos capazes de drenar recursos do governo, que poderiam ficar na economia doméstica.
Essa é a base do discurso do MAGA (Make America Great Again), a eixo de sustentação do trumpismo. É também o argumento implícito no slogan America First. Diz ainda a carta:
"No início deste governo, altos funcionários israelenses e membros influentes da mídia americana lançaram uma campanha de desinformação que minou completamente a sua plataforma "America First" ("América Primeiro") e semeou sentimentos pró-guerra para incentivar a uma guerra com o Irã. Essa câmara de eco foi usada para vos enganar, fazendo-vos acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacássemos agora, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso era mentira e é a mesma tática que os israelitas usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares de nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente".
Kent tem lugar de fala. Lutou 11 vezes como combatente no Exterior. Sua esposa, Shannon Smith, membro da marinha americana morta em um atentado com carro-bomba na Síria, em 2019. Ele é próximo de Tulsi Gabbard, toda-poderosa diretora de Inteligência Nacional.
Em ano eleitoral, quando serão renovadas parte da Câmara e a totalidade do Senado, em novembro, o ataque ao Irã, em cooperação com Israel, é um tiro no pé. Os efeitos no preço do petróleo, decorrentes do fechamento do Estreito de Ormuz, tem se refletido em alta na inflação nos EUA. E, como se sabe, o eleitor, em geral, vota com o bolso. Não com a mente. Já era bem provável que os republicanos perderiam a maioria sutil que detêm nas duas Casas.
A guerra vai aprofundar essa derrota, o que tornará os dois anos de mandato de Trump um período em que a Casa Branca terá pouca capacidade de ação - com proliferação, como se viu no primeiro mandato, de pedidos de impeachment.
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