Uma palestra que gerou reflexão sobre a questão indígena foi
realizada na noite de sexta-feira, 15, no Auditório do Campus SETREM. Participaram o cacique da comunidade indígena de Inhacorá, de São Valério do Sul,
Adilson Policena - etnia Kaingang, e o assessor do Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), Sandro Luckmann. Turmas representantes de todos os cursos da Faculdade
Três de Maio prestigiaram a palestra. Entre as ideias desenvolvidas no evento esteve a dos equívocos acerca do índio e das comunidades indígenas no olhar da
sociedade.
A primeira é a do índio genérico. “Poucos de nós nos damos conta de que um Kaingang é diferente de um Guarani. O que
prevalece entre nós é que ao falar de índio, fala-se de alguém que usa tanga, cocar e pinta o rosto. É isso que é colocado até mesmo no
material das escolas. É tão forte que quando comecei meu trabalho, vi em uma escola indígena uma professora não índia querer comemorar o Dia do
Índio pintando as crianças, fazendo e colocando tiras de papel em forma de corar. Mas ela não perguntou se o Kaingang tinha uma pintura ou outra forma de se expressar
própria”, destaca Luckmann.
Mais de 300 povos
Ele ressalta que são 305 povos indígenas no Brasil que
têm diferentes maneiras de pensar. “A sociedade acha que todos os índios são parentes, que se entendem, que são iguais. Não nos flagramos que
há línguas diferentes, sistemas diferentes de casamento, culturas indígenas diferentes. Também há a falsa ideia que indígena é coisa do
passado, que com a chegada dos colonizadores todos foram mortos, que morreram por causa das doenças e que não passam de registros em fotos em preto e branco. Não nos
damos conta que a comunidade indígena é presente”, complementa o assessor.
Luckmann destaca o papel do índio na política,
lembrando que nas eleições de 2014 houve indígena candidato a Deputado Estadual. “A área indígena do Inhacorá tem quatro vereadores
indígenas. No Estado são nove vereadores e um vice-prefeito. Eles estão buscando construir sua importância em nossa sociedade. São Paulo teve candidato a
Senador indígena. O índio está presente em nosso dia a dia, está conosco e se faz presente. A questão é se estamos e de que forma estamos vendo
isso”, reflete.
A evolução de todas as culturas
O assessor do COMIN também lembrou da falsa
ideia de que o índio representa uma cultura atrasada ou congelada. “Muitas vezes perguntamos por que eles estão vestindo roupas, usando celulares e relógios.
Há deputados defendendo essa ideia de que se ele tiver celular deixa de ser índio. Será que não é possível entender que a cultura se transforma
para todos? Quem é que se veste, alimenta e se comporta da mesma forma que a avó e o avô faziam no passado? Nosso avós mal sabiam da existência do telefone
e nem imaginavam que poderia haver aeroporto na região. Os nossos hábitos mudaram. Nós evoluímos, mudamos, as culturas vão se apropriando de novos
elementos. E a cultura indígena passa pelo mesmo processo. Há nova dinâmica, o mundo muda, nós mudamos e as comunidades indígenas também mudam,
assim como todas as comunidades”, destaca.
Outro senso comum destacado por Luckmann é o de que o indígena não trabalha. Ele destaca que
este é um pensamento errôneo. “Há reportagens que mostram que quem está colhendo maçãs em Vacaria são indígenas do Rio Grande do
Sul e até mesmo vindos do Mato Grosso do Sul. Muitos também trabalham em frigoríficos, onde ninguém mais quer trabalhar pelo trabalho repetitivo e pesado.
Só nos frigoríficos de Chapecó há registros de cerca de três mil indígenas trabalhando. E há outra questão; Fazer um balaio não
é trabalho? Buscar taquara, cortar e confeccionar o balaio não é trabalho? Seria o mesmo que comparar à questão de gênero em que a pessoa que cuida
do lar não trabalha”, complementa.
Necessidade de mobilização
O cacique Adilson Policena destaca
que na comunidade indígena de Inhacorá vivem 1,2 mil pessoas, em torno de 230 famílias, muitas passando por situações difíceis, enfrentando lutas
em busca de conquistas. “Toda essa situação que passamos, por trás dela há uma política da sociedade brasileira, dos gestores, dos agentes
políticos que desconhecem uma parte da história do Brasil. Isso que temos que falar para a juventude de hoje. Precisamos que as instituições públicas
tenham obrigação do debate, da reflexão quanto à questão indígena, pois se não fizermos esse movimento, essa mobilização na
sociedade brasileira, estaremos construindo sociedade com muita desigualdade social. Precisamos que a sociedade brasileira reconheça e valorize a cultura indígena, trabalho
indígena, a escola indígena e a sua terra. É só isso que queremos”, conclui Policena.