Primeira indígena a se formar em medicina pela UFRGS (Universidade Federal do Rio
Grande do Sul), Lucíola Maria Inácio Belfort conta as horas para a colação de grau que será realizada nesta sexta-feira (19). Residente da aldeia Terra
Indígena Serrinha, no município de Ronda Alta, na Região Norte do Rio Grande do Sul, Lucíola sempre sonhou em ser médica e entrou no curso em 2008, como a
primeira cotista indígena de medicina na universidade.
Filha de dona Andila Inácio e de seu José Maria Baima Belfort, Lucíola tem
origem indígena do povo kaingang e nordestina, e vem de uma família de mulheres estudiosas. A mãe é professora bilíngue e criou as cinco filhas entre os
livros. Duas delas se tornaram advogadas, uma é jornalista e outra é artista e escritora - todas com experiências reconhecidas em suas áreas de
atuação voltadas às questões indígenas.
"Minha mãe nos criou de uma forma muito independente e autônoma, talvez por
sermos mulheres e não termos as responsabilidades tradicionais que os homens assumem na aldeia. Cresci em um ambiente familiar diferenciado, de muito estudo. Eu sabia que enfrentaria
barreiras e dificuldades indo atrás dos meus sonhos, mas pensava muito nas coisas boas que poderia alcançar".
Lucíola ingressou na faculdade
com mais oito indígenas no sistema de cotas. Para garantir a vaga, ela realizou uma prova de português e redação. Antes disso, ela chegou a se formar em
enfermagem pela Unijuí e iniciou nas atividades clínicas desenvolvendo trabalhos em Programas de Saúde da Família. Depois, trabalhou como coordenadora de polo
base na antiga Funasa, em São Feliz do Araguaia, em Mato Grosso, sempre atuando com comunidades indígenas.
O caminho até o diploma de medicina,
no entanto, não foi fácil. Lucíola conta que sofreu muito preconceito e discriminação de outros estudantes e até de professores dentro da
universidade, especialmente nos primeiros anos de curso.
"A gente entra na faculdade achando que vai fazer novas amizades, encarar as aulas e muito estudo,
claro. No momento em que ingressei, me tornei estudante profissional, me dediquei 100% ao curso, mas logo comecei a receber mensagens de discriminação nas redes sociais por
ser cotista, por ser indígena e, ainda mais, por não ter as características físicas de índia kaingáng. Foi bem difícil, a comunidade
acadêmica em geral não estava preparada para isso, houve muita revolta pela minha presença ali, mas também recebi auxílio de muita gente, o que me ajudou a
não desistir", lembra.
Durante a faculdade, a estudante teve que conciliar os estudos com os cuidados com o filho Kafág, hoje com seis anos. Agora,
Lucíola vai procurar oportunidades para atuar como médica dentro de comunidades indígenas. Para o futuro, o plano é se especializar em ginecologia e
obstetrícia.
A cerimônia de formatura, que será realizada no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, contará com a presença de
amigos, familiares, lideranças tradicionais indígenas e representantes de organizações indigenistas. Vinte e oito integrantes da Terra Indígena Serrinha
também são esperados para celebrar a conquista com a formanda.
"É uma grande vitória. Apesar de todas as dificuldades, me tornei uma
pessoa mais forte e espero que também um ser humano melhor. A comunidade indígena sofre preconceito, ainda somos muito discriminados, por isso digo que a vitória
não é só minha, é de todos os indígenas, negros e pardos. Essa é uma porta que foi aberta para nós e tenho certeza que muitas pessoas ainda
vão passar por ela", comemora Lucíola.