27/01/2024 | 06:10 | Política
Para evitar ser atropelado em plenário, o Planalto trabalha numa proposta alternativa
Prioridade dos presidentes da Câmara e do Senado em 2024, a reforma administrativa irá antagonizar o governo e o comando do Congresso após a retomada das atividades legislativas em Brasília, em fevereiro. Pronto para ser votado pelos deputados, o texto enviado pelo então presidente Jair Bolsonaro em 2020 amplia terceirização dos serviços públicos, permite redução salarial e impõe avaliação periódica dos servidores. Para evitar ser atropelado em plenário, o Planalto trabalha numa proposta alternativa.
O governo tem consciência do ímpeto dos parlamentares, sobretudo do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). O deputado quer encerrar sua passagem pelo comando da Casa com imagem de reformista ao aprovar o último grande pacote estruturante em tramitação, após as mudanças nas regras tributárias, trabalhistas e previdenciárias.
Embora considere o tema urgente, ele salienta que o texto ainda pode ser alterado em plenário e que as mudanças nas carreiras só afetariam servidores que entrarem no serviço público após a sanção das novas regras. Para angariar aderência, Lira e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), sustentam a defesa da reforma na necessidade de corte do gasto público.
— Além de uma discussão pura e simplesmente de uma reforma administrativa, em relação aos servidores faremos uma discussão muito ampla sobre gasto público, quais são as nossas prioridades — disse Pacheco na semana passada, no Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Apesar da investida da cúpula do Congresso, não há um movimento coordenado do governo para evitar que o tema seja colocado em votação. As bancadas de esquerda já foram derrotadas quando a reforma, estruturada na Proposta de Emenda Constitucional (PEC 32), passou sem dificuldade pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pela comissão especial, em 2021.
Embora agora esses partidos estejam no poder, ministros com assento no Palácio do Planalto têm alertado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a necessidade de mobilização. Há consenso de que o discurso de corte de gastos com pessoal tem forte apelo no Congresso e que o governo precisa mostrar disposição em pelo menos modernizar o modelo de gestão em troca de mudanças mais radicais, como a flexibilização da estabilidade funcional.
— Precisamos de um serviço público mais ágil e eficiente. Estabilidade tem de ser só para carreiras típicas de Estado, com poder de polícia — defende o deputado Darci de Matos (PSD-SC), que foi relator da reforma na CCJ.
Para evitar que discursos semelhantes ecoem pelo plenário, ministros têm pressionado a ministra da Gestão, Esther Dweck, a propor alternativas ao texto da Câmara. Embora divirjam do conteúdo da PEC, a Fazenda, a Casa Civil e a Secretaria de Relações Institucionais consideram importante levar a cabo uma reforma que reduza despesas.
Esther ficou de apresentar as medidas em fevereiro e acena com a fixação de metas de produtividade, freio nos supersalários e uma progressão mais lenta nas carreiras. As mudanças são consideradas tímidas pelo núcleo duro do governo, para quem a pasta abriga uma federação de sindicatos com forte influência sobre a bancada petista.
— Temos uma preocupação permanente com essa pauta porque ela enfraquece o serviço público. Precisamos reconstruir o Estado brasileiro e não esvaziá-lo ainda mais. Vamos lutar contra a reforma — diz o deputado Bohn Gass (PT-RS).
Seja quais forem as mudanças, há dois complicadores para a aprovação da reforma em 2024: o quórum qualificado e as eleições municipais. Como o texto mexe na Constituição, são necessários 308 votos a favor na Câmara e 49 no Senado, sempre em dois turnos. O calendário apertado, com a dispersão dos parlamentares no segundo semestre para a campanha eleitoral nos Estados, amplia a dificuldade de mobilização.
Muitos deputados e senadores também temem o desgaste de votar em ano eleitoral a retirada de direitos de categorias com forte poder de persuasão, como os servidores públicos. Para fazer valer uma proposta mais palatável ao Congresso e aos sindicatos, o governo acena com mudanças por projetos de lei, o que torna a aprovação mais fácil por exigir maioria simples em plenário.
— É muito difícil conseguir os 308 votos. O governo tem a máquina, é muito forte, então talvez o resultado seja uma reforma desidratada — admite Darci de Matos.
Reforma em 2008, extinguiu quase mil carreiras. Houve redução de pessoal, com uma vaga reposta a cada dois servidores que se aposentam. Não há mais promoções automáticas e a progressão de carreira depende de avaliação periódica.
Servidores podem ser contratados para diferentes estágios da carreira, inclusive direto para cargo de chefia. Uma tabela unificada, com variação regional, fixa o salário. Concursos são fiscalizados por órgãos independentes e servidor tem estabilidade.
Seleção para cargos de baixo e médio escalão é por concurso, mas para chefia há recrutamento, com análise de currículo, competências e entrevista. Escolha é por lista tríplice ou quíntupla. Após dois anos, há estabilidade, com avaliação periódica.
Há concurso para todos os cargos, sendo as chefias restritas a servidores de carreira. Em 2019, a tradicional Escola Nacional de Administração, berço do serviço público moderno, foi substituída pelo Instituto Nacional do Serviço Público. A reforma que previu contratação temporária e mobilidade entre órgãos.
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